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Clima e doenças forçam a migração de culturas

Mapa do agronegócio mostra a migração de culturas como a produção de laranja no interior paulista, ameaçada por clima e doenças

Laranja clima

Cinturão de produção de laranjas no interior paulista enfrenta adversidade do clima e greening, doença causada por bactéria transmitida por um inseto-praga | Foto: Getty Images

Nos mapas do agronegócio, migrações estão se tornando cada vez mais frequentes, com impacto nas pessoas que vivem da terra e também em mercados distantes das principais áreas de produção, segundo a especialista Aline Locks, engenheira ambiental, cofundadora e CEO da Produzindo Certo, solução que já apoiou a maneira como mais de 6 milhões de hectares de terras são gerenciados, através da integração de boas práticas produtivas, respeito às pessoas e aos recursos naturais.

Alguns dos exemplos mais conhecidos da migração de culturas são a região de Londrina, no Norte do Paraná, que já foi a capital do café, e Ilhéus, na Bahia, a capital do cacau. No interior de São Paulo, cidades como Araraquara correm o risco de perder a primazia na produção de laranja.

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Trata-se de um problema global e complexo, pela multiplicidade de culturas afetadas e de causas na sua origem, afirma Aline Locks. Clima, incidência de doenças e conflitos, por exemplo, muitas vezes definem o que se planta, o que se cria, o que se vende e o que se compra.

Laranja começa a migrar do interior paulista por causa do clima e doenças

A citricultura brasileira, responsável pela produção de dois em cada três copos de suco de laranja bebidos no mundo, começa a buscar novas áreas de produção, sobretudo em Minas Gerais.

O grande cinturão de produção de laranjas no interior paulista vive dois temores, segundo a especialista. O clima mais incerto aflige os citricultores, mas não tanto quanto o greening, doença ainda sem cura, causada por uma bactéria transmitida por um inseto-praga, e que costuma gerar prejuízos tão grandes que a opção é erradicar pomares.

O mal, que mudou a economia do estado americano da Flórida, se alastra por São Paulo a ponto de fazer com que produtores estudem a opção de migrar para regiões vizinhas.

No café, dificuldades semelhantes, mas associadas ao clima, são vistas em várias regiões do mundo, inclusive no Brasil. Segundo estudo da Universidade Federal de Itajubá, algo entre 35% e 75% das terras onde hoje ocorre o cultivo poderão ficar inviáveis para esse fim até o fim do século.

A sensibilidade de algumas espécies – sobretudo a Arábica, uma das mais consumidas no mundo – às temperaturas extremas tem feito com que, ao longo das últimas décadas, agricultores tenham mudado de atividade ou de região.

No Norte do Paraná, o café perdeu espaço nos anos 1970, quando, depois de verem suas lavouras devastadas por geadas inclementes. Muitos migraram para regiões mais altas de São Paulo e do Sul de Minas Gerais, onde temperaturas mais amenas garantiam menor risco à produção – o mesmo se repete hoje em países produtores africanos, por exemplo.

“Hoje, o calor e a estiagem assombram os agricultores em algumas delas. Ao mesmo tempo, o café avança para regiões do Cerrado, graças ao desenvolvimento de variedades mais adaptadas e à adoção de práticas de mitigação climática, como a agricultura regenerativa”, afirma Aline Locks.

Os africanos, atuais reis do cacau, enfrentam os desafios da instabilidade climática, do envelhecimento das árvores, das práticas agrícolas inadequadas e o baixo volume de investimentos para renovação e melhoria do cultivo.

As quebras de produção em países como a Costa do Marfim, que concentra quase 60% de toda a oferta mundial, chegaram a 36% na safra 2022/2023. Com isso, os preços do cacau no mercado global estão quase 65% acima da média praticada há um ano.

“Ciência e consciência mostram-se aliados imprescindíveis para reduzir riscos e efeitos de um mundo em transformação, afirma Aline Locks. “O zoneamento climático de áreas agrícolas será cada vez mais importante para se entender o que e como plantar, reduzindo o consumo hídrico e promovendo a recomposição biológica dos solos. A opção a isso é migrar para a incerteza”.

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