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Corte de juros nos EUA pode começar no segundo semestre, apesar da economia aquecida

Apesar de alguma expansão do consumo de itens não essenciais no primeiro trimestre, ainda é provável o corte nas taxas de juros no próximo trimestre

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Apesar de este ter sido um dos ciclos mais intensos de aperto monetário da história, a atividade americana se manteve em patamares altos, com o PIB acumulando crescimento real de 2,5% no ano de 2023 | Foto: Getty Images

A economia dos Estados Unidos ainda registrou expansão do consumo de itens não essenciais no primeiro trimestre, mas a tendência para o ano deve ser de desaceleração, o que ainda permite manter como provável a hipótese de os cortes nas taxas de juros começarem até o próximo trimestre, segundo análise do Banco Safra.

Em março de 2022 o Federal Reserve iniciou um forte movimento de elevação da taxa básica de juros da economia americana, que saltou do intervalo entre 0,0% e 0,25% para o intervalo entre 5,25% e 5,50% em julho do ano passado, patamar mantido desde então.

Apesar de este ter sido um dos ciclos mais intensos de aperto monetário da história, a atividade americana se manteve em patamares altos, com o PIB acumulando crescimento real de 2,5% no ano de 2023 e a taxa de desemprego ainda próxima às mínimas já registradas.

Apesar disso, a inflação se manteve em queda, criando a expectativa de relaxamento monetário em 2024.


Para entender como foi possível chegar a um cenário de juro alto, atividade forte e inflação desacelerando é preciso voltar às origens da recente onda inflacionária, que remonta ao início da pandemia de Covid-19 há pouco mais de quatro anos. Diante do impacto inicial da presença do vírus os governos impuseram medidas severas de confinamento, que afetaram negativamente a atividade de diversos setores,
especialmente nos serviços.

Mesmo após a retomada da mobilidade a partir do segundo semestre de 2020, os desafios do lado da oferta permaneceram. Problemas no transporte marítimo se multiplicaram resultando em fretes mais caros, enquanto a continuação do confinamento da China prejudicou os
suprimentos de insumos industriais e provocou certo descompasso na oferta e demanda de semicondutores, o que afetou a produção de equipamentos eletrônicos e automóveis.

Tudo isso comprometeu o setor industrial e obrigou as empresas a pagarem mais pelos seus insumos. A invasão russa da Ucrânia exacerbou o quadro de aumento de preços das commodities energéticas, fertilizantes e commodities agrícolas. Assim, a inflação recebeu novo impulso e acumulou os valores mais altos em cerca de quatro décadas.

A partir de meados de 2022 a situação começou a mudar. O fim das restrições de mobilidade na China permitiu a retomada das exportações de insumos industriais e a melhora nas condições de transporte. O pouco apetite pelo consumo da população chinesa verificado mesmo com fim dos confinamentos no país ainda liberaram bens de consumo manufaturados para o mercado internacional, o que contribuiu para baratear gradativamente o seu preço. Além disso, as exportações de petróleo e de produtos agrícolas se acomodaram após alguns trimestres da guerra na Ucrânia.

As restrições de oferta que pressionaram os preços para cima em 2021-22 começaram a se relaxar, levando à gradual normalização da produção e alívio inflacionário ao redor do mundo no ano passado.

A economia americana se beneficiou em 2023 não só de preços de importação mais baixos, como de uma retomada da imigração, que havia sido fortemente reduzida pelas políticas adotadas a partir de 2017 e especialmente pela Covid-19. Essa imigração e a maior participação na força de trabalho dos imigrantes há mais tempo nos EUA têm ajudado a diminuir o hiato entre a demanda e oferta de trabalho.

Esse hiato que chegou a 6 milhões de potenciais empregos já caiu para perto de 2,5 milhões. Ele tem sido acompanhado por maior retenção dos empregados e mais facilidade de recrutar, o que tende a reduzir os custos trabalhistas. Esses, especialmente quando se considera a remuneração total, têm crescido sem impor grandes pressões às empresas.


O mercado de trabalho também tem se beneficiado das inovações tecnológicas recentes, refletidas no aumento da produtividade do trabalho. À medida que esta evolui, é possível expandir o produto para a mesma quantidade de fatores de produção utilizados, diminuindo as pressões inflacionárias. Tem recebido bastante exposição a contribuição, por exemplo, da inteligência artificial no aumento da capacidade de produção dos trabalhadores em diversos setores, reduzindo a sua demanda – a demanda total por trabalho, ou seja, vagas abertas ou preenchidas, estagnou nos últimos trimestres, apesar da continuidade do crescimento econômico.

A transformação tecnológica tem se traduzido também no uso da capacidade instalada das empresas: apesar do comportamento muito moderado do investimento em equipamentos, as medidas de uso da capacidade instalada vêm caindo no setor industrial, não obstante o crescimento econômico.

Em resumo, as restrições na oferta agregada (global) contribuíram para o surto inflacionário de 2021, enquanto a gradual reversão dessas restrições ao longo de 2022 e 2023, junto com uma política monetária mais apertada na maior parte das economias ocidentais, tem facilitado a queda da inflação nos últimos 12 meses.

No caso dos EUA, o aumento da oferta de mão de obra nos últimos meses se reflete na redução do hiato no mercado de trabalho, o que junto aos ganhos de produtividade tem reduzido o custo unitário do trabalho e diminuído a utilização da capacidade instalada da indústria, apesar dos níveis de produção relativamente robustos. Considerando a menor pressão do lado da demanda, decorrente da moderação no crescimento da remuneração total dos trabalhadores e da acomodação da oferta de crédito, assim como da diminuição do déficit fiscal do governo federal prevista para 2024, as condições para um arrefecimento do consumo e continuação da convergência da inflação para 2% parecem estar se alinhando, o que também foi notado pelo presidente do Fed Jerome Powell.

De fato, o consumo discricionário tem arrefecido segundo o Livro Bege do Fed e, apesar de ainda haver alguma expansão no primeiro trimestre, a tendência para o ano deve ser de desaceleração, o que ainda permite manter como provável a hipótese de os cortes nas taxas de juros começarem até o próximo trimestre.

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