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“Estamos longe de vencer a pandemia”, diz David Uip

Um ano após primeiro caso no Brasil, controle das infecções continua distante e depende do esforço de todos, diz infectologista

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Ex-secretário estadual de Saúde, infectologista David Uip alerta para a necessidade de manutenção das regras de distanciamento social | Foto: AE


Há um ano, no dia 26 de fevereiro de 2020, era registrado o primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil. Era o caso de um homem de 61 anos, morador da capital paulista e que havia passeado pela Itália alguns dias antes. Até então, não se fazia a menor ideia da onda que estava para chegar.

De lá para cá, o vírus ganhou força e os números da pandemia aumentaram de forma rápida e preocupante. O Brasil está há mais de um mês com média de mortes acima de 1 mil por dia, e superou esta semana a marca de 250 mil vítimas fatais.

Enquanto a doença avança, a vacinação continua emperrada e menos de 3% da população brasileira foi vacinada até hoje.

“A saída para o Brasil e para o mundo é a vacinação. Não temos plano B. Hoje, nós temos aqui no Brasil 10 milhões de vacinas e, com isso, a gente consegue imunizar 5 milhões de pessoas – obviamente é uma quantidade ínfima quando olhamos para o tamanho da nossa população (212 milhões de habitantes). Isso é muito preocupante”, diz o infectologista David Uip.

Uip foi o primeiro coordenador do Centro de Contingência para o coronavírus no Estado de São Paulo. Em agosto, ele pediu afastamento das funções, alegando problemas de saúde e, anteriormente, precisou ficar isolado por causa da infecção pelo coronavírus.

Atualmente, ele segue atendendo pacientes em seu consultório na zona sul da capital. Doutor David Uip falou com exclusividade a O Especialista. Confira a entrevista:

O Especialista – Como o senhor avalia o ritmo de vacinação no Brasil?
David Uip – Me preocupa muito. Inclusive, me constrange também. Vou te dar um exemplo: eu tive a doença e já me vacinei. Mas a minha esposa, que tem 62 anos, ainda não sabe quando vai tomar a vacina. Eu lido com infectados diariamente e isso é uma grande preocupação para mim. A minha mãe, de 93 anos, foi vacinada, já a minha sogra, de 83, ainda está esperando a imunização. Mais do que ninguém eu posso te afirmar sobre a importância da urgência dessa vacinação para todos os idosos.

Já é possível calcular quando teremos o controle da pandemia no mundo e, principalmente, no Brasil? Ou seja, o chamado pós-covid ainda está muito longe?

Estamos muito distantes disso ainda. Israel vacinou praticamente 50% da população – é um país pequeno. Os Estados Unidos já vacinaram 10%. Se você olhar para esses números, já se nota que a quantidade de pessoas vacinadas ainda está longe de oferecer um controle da contaminação. As epidemias se esgotam naturalmente, mas o problema é o número de mortes suficientes para essa epidemia se esgotar por si só. Então, dependemos demais da competência e velocidade dessa vacinação. Volto a dizer que é algo urgente.

Recentemente, o ministro da saúde, Eduardo Pazuello, prometeu imunização geral ainda em 2021. Como o senhor avalia esta afirmação?

Olha, eu sou fã número um dessa ideia. Mas precisa realizar. De qualquer forma, começamos. A boa notícia é que o SUS tem um sistema muito competente e, tendo vacina, dará conta do recado. O SUS vacina 80 milhões de pessoas em um ano contra a gripe. Sendo assim, pode vacinar muita gente contra a Covid-19 de forma eficiente. Só precisa ter a vacina.

O senhor acha que no segundo trimestre o ritmo de vacinação estará mais acelerado, abrindo um horizonte melhor para a saúde e para a economia?

Eu estou otimista. Eu acho que num breve espaço de tempo poderemos vacinar muito mais pessoas e chegarmos à tão desejada imunidade de rebanho. Ainda este ano teremos boas notícias sobre isso. Manguinhos e Butantan estão produzindo muito e são dois institutos competentes. O que precisa agora é o governo comprar e vacinar, comprar e vacinar.

Considerando a distribuição etária da população e os mais velhos também tendo prioridade na campanha de imunização seria possível vacinar toda a população acima de 70 anos de idade em poucas semanas. Esse grupo equivale a 7% da população, mas tem correspondido por cerca de 55% dos óbitos no País. Este seria um dos principais pontos para atacar?

Além dos profissionais da saúde, que são prioridade na minha opinião, tem que vacinar o maior número de pessoas com mais de 50 anos. Digo isso pelo fato de ter percebido ultimamente em meu consultório um número bem maior de pessoas contaminadas na faixa etária entre 50 e 60 anos. Há muitos casos de internação dentro desse grupo. Isso é uma novidade.

Os infectologistas estão prevendo que o espalhamento das novas cepas pelo país pode levar a novos colapsos em outros Estados, semelhantes aos de Manaus e Rondônia. Como o senhor vê o surgimento destas novas variantes?

A nova cepa do vírus observada em Manaus é tão perigosa quanto as cepas do Reino Unido e África do Sul. Temos ainda uma variante do vírus no Rio de Janeiro, menos perigosa que as novas variantes que estão aparecendo por aí, mas pior que o coronavírus inicial. Mutações são normais ao longo de uma epidemia. O maior desafio é saber as consequências dessas mutações, tanto do ponto de vista do infectividade (potencial de infecção) como do ponto de vista de morbidade (potencial de provocar mortes). Quanto à infectividade, essas cepas me parecem mais poderosas. Por isso, a importância de cada vez mais nos preocuparmos com a prevenção básica. Se mantivermos o distanciamento e todos os outros protocolos de segurança, tudo isso será minimizado. Agora, se as pessoas se aglomerarem como vimos nas festas de fim de ano e no carnaval, a tendência é perder o controle mesmo e conta vai chegar.

O que o senhor já observou sobre as reinfecções?

Os vírus provocam uma série de reinfecção, reativação ou superinfecção. Por exemplo, caso você já tenha se contaminado por um sorotipo de um vírus e tiver contato com um sorotipo diferente deste mesmo vírus, você pode ter uma infecção mais grave. Porém, é preciso tomar muito cuidado com o diagnóstico de reinfecção. Eu estou tratando de paciente com Covid-19 desde o começo da pandemia e não vi até agora nenhum caso de reinfecção. O que eu tenho percebido é que as pessoas interpretam erroneamente o exame. Algumas sorologias, que no primeiro semestre do ano passado deram positivas e com valores muito próximos da normalidade, hoje, a gente vê que nem eram casos de
Covid-19.

Qual a mensagem que o senhor quer deixar após esses 12 meses de luta contra o vírus?

Peço principalmente aos jovens para que não se aglomerem e evitem contaminar seus familiares e demais pessoas do convívio. Deixo meu alerta também para aqueles que já tomaram a primeira dose da vacina. Continuem, por favor, usando álcool em gel e máscaras. Tudo isso vai passar. Sei que nós estamos muito cansados, perto do esgotamento, mas o vírus não.

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