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Sandra Teschner

A benevolência como símbolo de resistência

A benevolência é símbolo de resistência e vira principal indicador de bem-estar para quem faz, recebe e até para quem só assiste ao ato, diz estudo

Grupo de amigos, de costas, se abraçando com camiseta azul, alusivo à benevolência

Conforme o World Happiness Report, a benevolência, resiliência e confiança crescentes são fatores que chamam positivamente a atenção durante a covid-19 e além | Foto: Getty Images

Há 10 anos, o relatório mundial da felicidade baseia-se em duas premissas: que a felicidade pode ser medida por pesquisas de opinião e que os principais determinantes do bem-estar podem ser identificados, explicando assim os padrões de vida e a satisfação dos povos.

Essas informações, no que lhes concerne, podem ajudar os países a elaborar políticas que visem uma sociedade mais feliz. Jeffrey Sachs, diretor da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU, explica a origem e o propósito do Relatório Mundial da Felicidade da seguinte forma. “Há uma década, governos de todo o mundo expressaram o desejo de colocar a felicidade no centro da agenda de desenvolvimento global. Eles aprovaram uma resolução da Assembleia Geral da ONU para esse fim.” O “World Happiness Report” nasceu dessa determinação de encontrar o caminho para um maior “bem-estar global”, diz ele, e completa: “Agora, em tempos de pandemia e guerra, precisamos desses esforços mais do que nunca”.

Mensurar a felicidade não é nada novo, assim como as “causas” que embasam uma vida feliz já vêm sendo amplamente estudadas inclusive em meta-análises (o chamado estudo dos estudos), trazendo à luz da ciência, conhecimento passível de ser verdadeiramente aplicado.

Toda essa gama de estudos possibilita que as pessoas, as organizações e as políticas públicas possam fazer uso dela para a construção de uma vida com mais sabedoria, e até com mais produtividade e eficiência.

Ser feliz está na base do desenvolvimento sustentável da humanidade; enquanto as gerações atuais têm a oportunidade de vivenciar uma vida mais saudável e plena, o crescimento não compromete o futuro das próximas gerações. Porque quanto mais “feliz”,  mais comprometidos com o bem-estar coletivo se é.

Dentre as muitas descobertas promissoras, identificadas pelo relatório, vale citar:

  • A transformação do interesse público pela felicidade;

  • Aumento no número de líderes em todo o mundo que veem a felicidade como um objetivo importante e abrangente nas organizações e políticas públicas.

Com o incentivo da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, órgão de importância internacional para assuntos que vão além da economia, incluindo educação e meio ambiente, quase todos os países membros da ONU, medem a felicidade de seu povo anualmente. 

Algo de realmente novo?

Ainda que tenha havido, em média, uma tendência ascendente no estresse, preocupação e tristeza na maioria dos países e um ligeiro declínio no prazer de viver a longo prazo, há luz no fundo do túnel. A benevolência, resiliência e confiança crescentes são fatores que chamam positivamente a atenção durante a covid-19 e além.

Os dados de 2021 confirmam que as avaliações médias de vida, efeitos de compensação de influências negativas e positivas, permaneceram notavelmente resilientes durante a covid-19. 

Vale ressaltar que para os jovens a satisfação com a vida caiu, enquanto para aqueles com mais de 60 anos (a geração prateada) aumentou.

A benevolência forneceu um suporte notável para as avaliações de vida de doadores, receptores e observadores, que ficaram satisfeitos em ver a prontidão para estender a mão,  para ajudar uns aos outros em momentos de vulnerabilidade, o que corrobora com incontáveis pesquisas da ciência da felicidade que comprovam a afirmação de que“ dar é melhor que receber” e, principalmente, que altruístas são mais felizes, enquanto contribuem para a felicidade de outros.

Os dados são claros: houve um grande aumento na proporção de pessoas que doam para a caridade, ajudam desconhecidos, e fazem trabalho voluntário em todas as regiões globais. Ao todo, a média dessas três medidas aumentou um quarto em 2021, em comparação com antes da pandemia.

 FIB (Felicidade Interna Bruta) x PIB

A contribuição de melhorias nas pesquisas envolvendo a ciência da felicidade prometem fazer a grande diferença no bem-estar subjetivo com três grandes vertentes:

  • A primeira é nossa nova capacidade de medir o conteúdo de felicidade do texto, seja em livros ou mídias sociais. Isso pode ser feito mecanicamente contando a frequência de diferentes categorias de palavras ou através do algoritmo que também analisa o conteúdo. Esses métodos mostram que as referências à felicidade aumentaram acentuadamente nos últimos dez anos. As referências à renda e ao PIB caíram e se tornaram menos comuns do que as referências à felicidade. Estas são tendências encorajadoras no longo prazo.

  • Uma segunda grande área de progresso, diz respeito à relação entre biologia e felicidade, os “biomarcadores” de felicidade, além de questões genéticas.

  • A terceira área de avanço é a gama de emoções cobertas pela pesquisa da felicidade. O Ocidente tende a ignorar emoções positivas importantes que envolvem baixa excitação — como calma, paz e harmonia.  Pesquisas recentes mostram como essas emoções contribuem significativamente para a satisfação geral com a vida. Em 2020, pela primeira vez, a Gallup World Poll, organizadora do relatório, fez perguntas sobre a experiência de vida em equilíbrio.

A confiança torna você resiliente

Relatórios anteriores examinaram a ligação entre a confiança das pessoas nos governos, instituições e a felicidade (como múltiplos estudos comprovam a mesma relação em qualquer segmento da vida).  Os resultados mostraram que as comunidades que possuem altos níveis de confiança são mais felizes e resilientes diante de crises.

Doações à caridade, ajuda a estranhos e voluntariado aumentaram em todas as regiões do mundo. Segundo o relatório, a média global das três ações (doações, ajuda e voluntariado) é cerca de 25% maior em 2021 do que antes da pandemia. Esse aumento de boa vontade, especialmente quando se trata de ajudar estranhos, é uma evidência poderosa de que as pessoas estão ajudando outras pessoas necessitadas, tornando o destinatário mais feliz, dando um bom exemplo para os outros e criando uma vida melhor para si mesmas.

Pelo quinto ano consecutivo, a Finlândia lidera a lista dos países mais felizes do mundo. A Dinamarca continua em segundo lugar, enquanto a Islândia subiu de quarto, no ano passado, para terceiro este ano. O Brasil subiu três posições em relação a 2020 e ficou na 38ª posição.

 Os 20 países mais felizes do mundo em 2022 foram:

  1. Finlândia
  2. Dinamarca
  3. Islândia
  4. Suíça
  5. Holanda
  6. Luxemburgo
  7. Suécia
  8. Noruega
  9. Israel
  10. Nova Zelândia
  11. Áustria
  12. Austrália
  13. Irlanda
  14. Alemanha
  15. Canadá
  16. Estados Unidos
  17. Grã-Bretanha
  18. República Tcheca
  19. Bélgica
  20. França

Nenhuma grande novidade para quem já age pelas razões certas.

Ame ao outro como a si mesmo, seja altruísta, cuide do mundo à sua volta, seja bom, generoso, gentil, confiante, grato, compassivo. Medite, respire, cultive a paz, inclusive a interior.

A grande diferença que vemos é que hoje encontramos esses fatores estudados por milhares de cientistas e pelos maiores institutos de pesquisa do mundo, todos ocupados em comprovar o que muitos intuitivamente, filosoficamente ou por questões de espiritualidade sempre fizeram:

“ Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.” (Fernando Pessoa)


Administradora de empresas, pós-graduada em Neuropsicologia e Chief Happiness Officer certificada pela Florida International University. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, um centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. É jornalista, autora, palestrante e engajada social.

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