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Sandra Teschner

A importância da vida depois das perdas

Há um processo que se inicia no momento que algo é ceifado de maneira definitiva da nossa vida. É preciso passar por todas as suas etapas, para honrar o que se perdeu

Sol nascendo em um dia de inverno no Canadá

“A tarefa, do ponto de vista psicológico, é enfrentar a morte encontrando uma maneira de viver com ela”, ensina Julia Samuel, autora de “This Too Shall Pass”| Foto: Getty Images

A pandemia da covid-19 impõe a experiência diária de perdas de diferentes naturezas para todos, com diferentes gravidades e também diferentes recepções.

É possível dizer que todos, indiscriminadamente, perdemos o mundo que conhecíamos. Nada que se compare com a perda de um ente querido ou da própria saúde, fatos cotidianos no Brasil. Mas no cérebro, sentimento de perda de um sonho de vida tem o mesmo efeito de uma partida inesperada e não desejada.

O luto é um processo emocional que se inicia a partir do momento que algo é ceifado de maneira definitiva da nossa vida: um emprego, uma relação, um projeto de vida, uma pessoa.

“A tarefa, do ponto de vista psicológico, é a de enfrentar a morte e encontrar uma maneira de viver com ela”, define Julia Samuel, terapeuta especializada em luto e autora de “This Too Shall Pass”(Isso também vai passar). A escritora desvenda ainda um outro tipo de luto, que ela nomeia como “perdas em vida”, e que incluem o divórcio, a demissão ou a vida como a conhecíamos.

A pandemia fez aflorar essas duas formas de luto e ainda trouxe uma nova e poderosa variante, um sentimento de múltiplas perdas, inclusive de segurança, em senso comum, sentido, ao mesmo tempo, por milhões de pessoas.

E esse desconforto coletivo ganhou nome próprio, que em português vem sendo chamado de “definhamento”. O termo, uma tradução do inglês “Languishing”, não é novo e foi cunhado pelo psicólogo americano, Corey Keyes em 2002 com a publicação: “Do definhamento ao florescer na vida”, onde relatou um meio termo entre a depressão e o bem-estar.

A novidade em relação ao uso dessa expressão está em seu alcance. A melancolia transita do nível micro para o macro, do indivíduo para a grande parte da população, um coletivo letárgico. Lições dos mais diversos estudos da ciência do bem-estar são apostas de antídotos, por profissionais renomados nas mais diversas áreas do comportamento humano.

“Definhamento é uma sensação de estagnação e vazio. É como se você estivesse confundindo seus dias, olhando para sua vida através de um para-brisa embaçado”, escreveu o psicólogo Adam Grant em um artigo para o jornal New York Times. “Enquanto os cientistas e médicos trabalham para tratar e curar os sintomas físicos do covid 19, muitas pessoas lutam contra a longa duração emocional da pandemia. Alguns de nós ficaram despreparados, quando o medo intenso e a dor do ano passado se dissiparam.”

Efeito nocebo

Em psicologia é comum categorizar como “luto antecipatório”, o estado de medo das incertezas sobre o futuro, uma espécie de mau presságio. Nosso cérebro primitivo identifica que algo negativo está por vir, e nos coloca em um sistema de alerta, também comumente descrito como “lutar ou fugir”.

Este estado emocional, seus efeitos e antídotos também foram amplamente discutidos por Sandro Formica, Ph.D em Ciência da Felicidade na Florida International University. Em publicação de abril de 2020, ele chama a atenção para o chamado efeito nocebo, uma espécie de versão danosa do tão conhecido efeito placebo.

“Em todo lugar, falamos sobre aspectos objetivos, taxas de perigo e mortalidade do coronavírus, contudo nessa situação delicada os aspectos subjetivos são igualmente importantes. Um tema fundamental está relacionado ao efeito placebo, cientificamente comprovado, que pode ativar a química do nosso corpo para resolver nossos problemas internos. Da mesma forma, podemos ativar o efeito nocebo, que também tem comprovação científica, embora menos conhecido, e que compromete negativamente nossa química interna. Sob o Nocebo, nos sentimos doentes e nossas defesas imunológicas despencam”.

Formica lembrava que se deve evitar as notícias alarmantes fora do que é útil ou se possa combater. “Nós só controlamos nossas ações e atitudes. A informação deve ser usada para a prevenção, se não gera sofrimento e compromete a saúde mental das pessoas”. Entre suas sugestões para manutenção de um estado mental positivo, estão:

  • Concentre-se no que você pode afetar

  • Trabalhe com o que está no presente

  • Seus pensamentos e ações estão sob seu controle, faça uso deles a seu favor

  • Depois de ter feito o que está a seu alcance, deixe as coisas seguirem seu curso

  • Anote: “Uma pessoa feliz não é uma pessoa em um determinado conjunto de circunstâncias, mas, sim, uma pessoa com um determinado conjunto de atitudes

  • Não reprima sua dor, ela faz parte do processo de cura

  • Dê sentido à vida, algo que seja maior do que você

Nesse contexto, fica fácil entender por que o “luto” foi exatamente o tema mais viral da história da Harvard Business Review. Trata-se de uma entrevista do editor Scott Berinato com David Kessler, no ano passado. Kessler é coautor com Elisabeth Kübler-Ross do icônico os “Os Segredos da Vida”, obra que classificou os 5 estágios do luto.

Em seu novo livro, adicionou uma outra etapa ao processo: “Encontrando Propósito. A sexta etapa do luto” (em livre tradução).

“O luto é, na verdade, múltiplos sentimentos que devemos administrar”. O psicólogo explica como os cinco estágios clássicos do luto: negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação se aplicam hoje na era da covid-19, adiciona propósito (ou significado) a estas,  e identifica as melhores práticas para lidar com o definhamento.

Entre os ensinamentos de Kessler sobre perdas, algumas lições difundidas pela Ciência da Felicidade

  • Compreender os estágios do luto, sabendo que eles não são lineares: “Há algo poderoso em chamar esse sentimento que estamos vivendo agora de luto. Isso nos ajudar a entender o que está ocorrendo dentro de nós”

  • Se permitir sentir suas dores emocionais

  • Reconhecer e equilibrar os maus pensamentos com os bons

  • Focar no presente “A mesa é dura. O cobertor é macio. Posso sentir a respiração entrando pelo meu nariz. Isso realmente funcionará para amortecer um pouco dessa dor”

  • Abandonar coisas que você não pode controlar: não controlamos a existência do vírus, mas controlamos a decisão de usar máscaras, lavar as mãos, ou manter um distanciamento social

  • Encontrar significado nos eventos difíceis de entender: “Acredito que continuaremos a encontrar significado agora e quando isso acabar”

  • Conservar a compaixão

  • Praticar a empatia: “O luto de cada pessoa é tão único quanto sua impressão digital. Mas o que todos têm em comum é que não importa o quanto sofram, eles compartilham a necessidade de testemunhar, não tendo sua dor diminuída ou reformulada pelo outro. A necessidade é que alguém esteja totalmente presente na magnitude de sua perda, sem tentar apontar o lado positivo por este tempo.”


Administradora de empresas, pós-graduada em Neuropsicologia e Chief Happiness Officer certificada pela Florida International University. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, um centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. É jornalista, autora, palestrante e engajada social.

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