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Claudio Monteiro Considera

Claudio Considera

A recessão de 2020 e as perspectivas para 2021

PIB per capita brasileiro deverá ficar, em 2021, 2,3% abaixo do nível pré-crise do coronavírus

O Brasil, assim como o Resto do Mundo, sofreu uma paralização brusca da economia a partir da metade do mês de março com a maior perda ocorrendo em abril; em maio a situação começou a despiorar e progressivamente as perdas foram parcialmente reduzidas, sem,
contudo, recuperá-las.

Destrinchando as perdas, conclui-se que todas as atividades foram atingidas à exceção da agricultura já que a pecuária sofreu com a falta de demanda.

Na indústria, a extrativa mineral pouco sofreu. A indústria de transformação teve perdas fortes, mas a mais atingida foi a indústria da construção, não apenas sob a ótica da paralisação da produção, mas principalmente pela falta de demanda que se constitui de moradias e obras públicas.

A classe média, assustada com a possibilidade de desemprego retraiu suas compras e as obras públicas estão virtualmente paralisadas devido a insolvência dos estados e ao aumento da dívida pública federal.

Mas, as maiores perdas de fato ocorreram no setor de serviços que representa cerca de 70% do PIB do país.

Todos seus componentes dependem de forte interação social que foi
desencorajada e mesmo suspensa devido a pandemia da COVID-19.

O comércio teve seus shopping centers fechados e parte das compras se deslocaram para o comércio virtual com dificuldades generalizadas.

O transporte de passageiros foi fortemente reduzido, mantendo-se apenas o transporte de cargas.

A atividade financeira se manteve e até mesmo cresceu com a virtual suspensão dos pagamentos em dinheiro e a maciça utilização de transações financeiras eletrônicas.

Os serviços de comunicação foram em parte prejudicados com a paralisação de espetáculos de cinema e teatro, mas foi fortemente beneficiado pelo aumento do uso de serviços de televisão fechada e os diversos serviços de filmes, tais como Neteflix, apple tv, Now, etc.

O item mais prejudicado pela pandemia, entretanto é o identificado como “outros serviços” que representam 15% do PIB do país: nessa rubrica encontram-se os serviços de alimentação fora da residência, hotelaria, serviços de manutenção de aparelhos domésticos e outros. E, esse componente tem demorado a retomar.

Este escrutínio mostra o quanto a atividade econômica depende do contato social e não se recuperará sem seu retorno.

A vacinação é imprescindível, e o atraso em providenciá-la impõe sacrifícios desnecessários à sociedade brasileira. A economia perdeu algo em torno de 5% de PIB em 2020; para voltar ao PIB do início de 2020 teria que crescer esses mesmos 5%: a economia irá crescer, mas não me parece que será suficiente para recuperar tal perda.

E há de se levar em conta a suspensão do auxilio emergencial que possibilitou a sobrevivência de parcela importante dos mais pobres que consumiram bens industrializados não duráveis conforme refletido pelo consumo das famílias.

É importante lembrar que a economia havia crescido nos 3 últimos anos antes da pandemia baseada no consumo das famílias e em 2019 notadamente no consumo de serviços.

Não há qualquer motor capaz de conduzir a economia num crescimento sustentado. Acreditava-se que a reforma da previdência e outras reformas prometidas estimulariam os investidores. Isto não ocorreu, inicialmente devido as incertezas quanto ao compromisso do governo com o equilíbrio fiscal e em seguida com o advento da pandemia.

Assim, a economia continua fadada a voltar para a estagnação do período recente.

Com base nas expectativas de mercado (mediana do Boletim Focus) para o PIB, 1 chega-se à conclusão de que o PIB per capita brasileiro também não deve recuperar em 2021 todas as perdas de 2020.

Com as projeções de queda do PIB per capita de 5,1% em 2020 e crescimento de 3,0% em 2021, o nível do PIB per capita brasileiro deverá ficar, em 2021, 2,3% abaixo do nível pré-crise do coronavírus.


Doutor em Economia pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Economia pela Universidade Nacional de Brasília e pós-graduado em Análise Econômica pelo IPEA. Foi chefe das Contas Nacionais do IBGE, diretor do IPEA e Secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda. Atualmente coordena o Núcleo de Contas Nacionais da FGV IBRE.

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