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Helena Chagas

Helena Chagas

Apoio do centrão tem prazo de validade

Com Ciro Nogueira na Casa Civil, presidente da República garante colaboração do centrão, mas resta saber até quando o apoio vai durar

Congresso Nacional em Brasília

Mudança ministerial busca assegurar apoio ao governo no Congresso Nacional| Foto: Getty Images

Das duas principais missões atribuídas por Jair Bolsonaro ao novo chefe da Casa Civil, senador Ciro Nogueira – ambas diretamente relacionadas à própria sobrevivência – apenas uma tem boas chances de sucesso: evitar o impeachment. Se, numa escala de zero a dez, a possibilidade de Bolsonaro vir a ser afastado do cargo por crime de responsabilidade já girava em torno de quatro ou cinco, agora a entrega a um dos principais líderes do Centrão da caneta mágica que nomeia, libera verbas e autoriza ações de governo faz a probabilidade cair a menos de um, segundo avaliação de políticos experientes.

O senador pode até não conseguir, como quer, amenizar o relatório final da CPI da Covid, que deve apontar o presidente como responsável por diversos crimes. Mas o gargalo da Câmara dos Deputados, a quem cabe votar a autorização para processá-lo, estará mais fechado do que nunca. Ciro Nogueira dará a seu parceiro Arthur Lira, presidente da Casa, a retaguarda material necessária para garantir os 171 votos favoráveis ao Planalto. Azeitando a engrenagem da máquina, poderá até dar a Lira o conforto necessário para continuar sentado em cima de um novo pedido de impeachment.

A segunda missão de Ciro, porém, é bem mais complicada e não tem lá tantas perspectivas de ser cumprida: articular a candidatura do presidente à reeleição. Sem partido e a cada dia mais isolado politicamente, Bolsonaro concluiu que, se não entregasse o coração do governo ao Centrão, sobretudo ao PP que o novo ministro preside, corria o risco de perder o apoio dessas forças para 2021.

Bolsonaro e filhos veem o partido como uma canoa relativamente segura para chegar à campanha, e sonham com uma filiação a seus quadros. O PP tem estrutura pelo país, fundo eleitoral robusto e bom tempo de propaganda na TV. Eles sabem, acima de tudo, que, se o PP debandar, pouco sobrará do atual governo e da possibilidade de ter apoio político para a reeleição. Não estamos mais em 2018, e a temporada não parece que será novamente favorável a falsos outsiders que sabem usar bem as redes.

O maior problema de Bolsonaro, que dificilmente Ciro conseguirá resolver, é que boa parte do PP não o quer. Não é a primeira vez que a família Bolsonaro tenta cercar o partido. Em todas elas, seus caciques, com muitos anos de esperteza nas costas, durante os quais apoiaram todos os governos que se sucederam, saíram de fininho. E isso quando a popularidade presidencial ainda andava em patamares razoáveis e quando o ex-presidente Lula ainda não estava liderando as pesquisas. Imagine agora.

Diferentemente do que ocorre no caso do impeachment, essa não parece ser uma questão que se resolve apenas com cargos, verbas, benesses e etc. Trata-se da sobrevivência política de cada um, pois deputados federais e estaduais, um terço dos senadores e todos os governadores passam pela eleição do próximo ano.

Estar amarrado à uma candidatura presidencial com grandes chances de fracasso pode não ser um bom negócio para essa turma. Ela inclui a maioria dos caciques do PP, que tem origem no Nordeste, principal reduto de Lula, e vai relutar em entrar na briga do lado errado. O próprio Ciro é do Piauí, e o hoje ainda fiel Lira é de Alagoas, estados onde o ex-presidente petista venceria Bolsonaro hoje com folga.

É por aí que os conhecedores da política acreditam que a fidelidade do PP de Ciro Nogueira, e do Centrão, tem prazo de validade. Se a popularidade do presidente da República não se recuperar de forma significativa nos próximos meses, em abril do próximo ano – prazo de desincompatibilização de cargos públicos e de filiação partidária para quem vai concorrer nas eleições – é bem possível que o governo venha a sofrer novo cavalo-de-pau. Desta vez, marcado pela debandada do Centrão, que, bem-alimentado e cheio de energia, irá, com a naturalidade de sempre, disputar a eleição contra Bolsonaro.


Jornalista formada pela UnB. Trabalhou como repórter, colunista, chefe de redação e diretora da Sucursal Brasília de O Globo. Trabalhou também em outros veículos, como o Estado de S. Paulo, SBT e Jornal de Brasília. Foi diretora de Jornalismo da EBC/TV Brasil e ministra-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Atualmente é sócia-diretora e analista de política na TAG Report.

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