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Sandra Teschner

Compaixão e felicidade na era da Inteligência Artificial

O comportamento compassivo vai além da empatia e transforma a compreensão da dor alheia em ações com resultados concretos

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A compaixão pró-social promove a busca por soluções que geram felicidade em quem dá, quem recebe e quem presencia o gesto | Foto: Getty Images

Toda organização é um constructo de pessoas. Nesse sentido, a performance de qualquer empresa, por mais parametrizada em sistemas e tecnologia que seja, continua dependendo de mentes que interagem, inclusive para o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA, do inglês). E, quanto mais felizes somos, mais produtivos e mais lucrativos nos tornamos. E não o contrário

Segundo o ex-CBO do Google X, Mo Gawdat, “A felicidade não é uma coincidência, é essencial para a sobrevivência”. Ele afirma, em seu novo livro, ainda não lançado, “Scary Smart”, que a IA será mais inteligente do que qualquer ser humano e a única forma de garantir nossa sobrevivência será “dando um bom exemplo a ela”.

Temos de criar “até a IA com empatia”, diz Gawdat. Para tanto, antes, temos de desenvolver a compaixão pró-social, como um sustento para nossa própria felicidade. E ele não está sozinho nesse pensamento.

A felicidade é a estrutura para vivenciarmos os chamados “tempos melhores”. Ser feliz precede o sucesso. Não se trata de opinião: é o que concluem rigorosos estudos sobre o tema. O seu sucesso futuro é uma consequência do bem-estar subjetivo do presente. Não se trata simplesmente, porém, de elevar a autoestima, ou provocar risadas exacerbadas. Emoções positivas de alguma forma contribuam para nossa percepção de bem-estar, mas a equação é mais complexa. 

Ser feliz é coisa séria e depende muito mais de como agimos em relação ao outro, do quão empáticos, altruístas e compassivos nós somos, do que qualquer valor que possamos agregar em nossas contas. A boa notícia é que essas mesmas ações são fortes corresponsáveis pelos nossos lucros ou por tudo aquilo que chamamos de sucesso na vida.

Compaixão traz felicidade, que traz mais felicidade

Alguns cientistas se referem a essa experiência como sendo um efeito dual da felicidade: por um lado, ser feliz é o objetivo principal da vida de todo ser humano, (segundo pesquisa da ONU, realizada em março de 2021); por outro, é a causa da realização dessa meta.

Para ter sucesso no futuro, ser feliz no presente é receita atestada pela ciência. Essa ideia aparece em pesquisas consagradas (e berço dos mais diversos best-sellers sobre o tema) – como a de Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia em Riverside, Ed Diener, da Universidade de Illinois, e Laura King, da Universidade do Missouri. Todas elas realizadas em metanálise (estudo sobre os estudos), o que leva a um resultado de grande confiabilidade.

Depois de trabalharem em mais de 200 pesquisas que somaram uma amostragem de 275 mil pessoas, os cientistas concluíram que pessoas felizes apresentam mais chances de ter ótimas relações de amizade e excelentes relacionamentos conjugais, alcançar salários maiores, performar melhor no trabalho, ter mais criatividade – logo, tendem a solucionar problemas com maior rapidez, mais saúde, otimismo, energia, altruísmo do que aquelas “menos felizes”.

Pessoas felizes no presente tendem a ser mais bem remuneradas no futuro, de acordo com um estudo que analisou a felicidade de universitários no início da vida acadêmica, encontrando correlação positiva com os seus salários 16 anos mais tarde.

O cérebro de pessoas com um estilo de vida e comportamentos positivos apresenta conexões mais fortes entre as áreas cerebrais relacionadas com a memória, a linguagem, a imaginação e a empatia, o que lhes proporciona vantagens competitivas tangíveis. Esse é o resultado do estudo de Nichols Smith, (“Nature Neuroscience”), em que foram avaliadas as conexões neurais de 461 participantes, após responderem a testes com métricas de satisfação com a vida, a renda, a educação, a memória e as características de personalidade.

Outras pesquisas avaliaram como a felicidade do indivíduo é enraizada na felicidade dos outros. Não é difícil encontrar exemplos. Warren Buffet, que declarou, numa entrevista lendária à rede americana CNBC, que sua felicidade não vinha do dinheiro que ele ganhava, mas sim do que ele doava.

O investidor doa parte dos seus bilhões à caridade e assumiu o compromisso de doar 99% da sua fortuna para causas sociais. Em outra entrevista, para a PBS, ele disse que seus bilhões não teriam utilidade para ele, mas para outras pessoas. Sua saúde e motivação, aos 91 anos, é fruto de ter uma vida pautada pela dualidade da felicidade, como causa e como consequência do seu sucesso.

Compaixão vai além da empatia

Empatia e compaixão não são sinônimos. Diferenciá-los é compreender as direções possíveis de ações motivadas por sentimentos.

Segundo o Psychology Today, compaixão é a capacidade de se relacionar com a situação de outra pessoa, com o ímpeto de ajudar. Já empatia é sentimento de consciência em relação às emoções de outrém, a compreensão do que os outros sentem sem que implique em uma interferência.

Assim, a compaixão seria uma resposta emocional à empatia com resultados concretos. Enquanto a compaixão nos leva à ação, a empatia cria laços de identificação nem sempre favoráveis, que precisam ser bem identificados para evitar emoções negativas, como a identificação com uma dor presumidaem outra pessoa, como a projeção de um sentimento pessoal do qual não se tem conciência. 

“Pesquisas recentes em neurociência e psicologia mostram que a empatia nos torna tendenciosos, tribais, e muitas vezes cruéis”, argumenta Paul Bloom, professor de psicologia da Universidade de Yale, autor do livro The Case for Rational Compassion.

O livro baseia-se nas distinções entre empatia, compaixão na tomada de decisão moral. “As avaliações morais sobre as pessoas e os eventos ao nosso redor são o que determinam se somos empáticos por elas”. Segundo o psicólogo, o sentimento de empatia pode influenciar as pessoas a serem boas ou más.

Bloom argumenta que racionalizar atos de bondade é um guia mais eficaz para decisões morais do que a empatia, que pode nos tornar inconscientemente mais solidários com as pessoas com as quais nos identificamos mais. Isso nos torna menos propensos à conexão com aquelas pessoas cujas experiências não refletem as nossas. Em última análise, embora bem-intencionada, a empatia não é neutra e pode, às vezes, prejudicar mais do que ajudar nossos relacionamentos e nossa capacidade de liderar com eficácia.

O CEO do LinkedIn, Jeff Weiner, disse, durante seu Talk no Wisdom 2.0, que o foco de sua vida é “expandir a sabedoria coletiva do mundo por meio da compaixão”. E que isso se tornou a estrela guia da rede social.

Weiner também expressa a importância de se entender a diferença entre compaixão e empatia. Durante um seminário na Stanford Graduate School of Business, o CEO falou sobre preconceitos, dizendo que “a reação natural que muitas pessoas têm quando discordam de alguém é de espelhar cegamente as emoções, ou assumir más intenções”. Assim é que os preconceitos surgem, mesmo quando estamos sendo empáticos.

Motivação e altruísmo

Já a compaixão é a “bondade enraizada na apreciação de outros seres humanos como pessoas reais, que também sofrem, independentemente de nossas afinidades e semelhanças”. O professor de psicologia C. Daniel Batson, da Universidade do Tennessee, diz que “as pessoas muitas vezes ajudam os outros só pela bondade de seus corações”.

Batson é responsável por publicações experimentais que apoiam a hipótese chamada de “empatia-altruísmo” em contraste com o entendimento mais comum da psicologia contemporânea, que tende a identificar toda motivação pró-social como sendo egoísta, ou seja, com o objetivo final de aumentar o próprio bem-estar. A motivação só pode ser considerada altruísta quando o objetivo final é aumentar o bem-estar de outra pessoa.

Os estudos em psicologia social documentados por Batson trouxeram importante entendimento quanto aos sentimentos que experienciamos em relação às dores alheias.

No estudo, participantes que se imaginaram na posição “dolorosa” do outro demostraram sinais mais fortes de desconforto e angústia pessoal, o que pode ajudar a explicar por que observar uma situação de necessidade nem sempre produz comportamento pró-social: se perceber outra pessoa em uma situação emocional ou fisicamente dolorosa provoca angústia pessoal, o observador pode tender a não prestar atenção integral à experiência do outro ou evitá-la. Como resultado, pode não se comportar simpaticamente, ajudando o outro a sair da situação infeliz.

Gerenciar de forma compassiva seria, então, uma resposta mais objetiva que gera uma ação apropriada, que transcende a emoção pessoal. Tanto a liderança empática quanto a liderança compassiva são fundamentais, quando usadas de forma eficaz. Enquanto a empatia é uma poderosa ferramenta para manter uma melhor dinâmica da equipe, criando uma espécie de segurança para todos os envolvidos, a compaixão no trabalho define as ações, o modelo de solução de problemas, com a identificação das oportunidades e das vulnerabilidades.

O ato de ajudarmos ao outro gera sentimentos positivos para nós mesmos, para quem é alvo de nossa ajuda e também para quem testemunha essa ajuda. Segundo pesquisadores da Universidade Estadual de Oregon, quando vemos alguém ajudar outro o nosso sistema nervoso simpático entra em ação, produzindo desconforto, dor e estresse no primeiro momento. No momento seguinte nosso sistema nervoso parassimpático é ativado, aliviando esses sentimentos e nos proporcionando prazer ao observar a dor amenizada.

É preciso educar os algoritmos: somos mais felizes, quando somos mais compassivos.


Administradora de empresas, pós-graduada em Neuropsicologia e Chief Happiness Officer certificada pela Florida International University. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, um centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. É jornalista, autora, palestrante e engajada social.

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