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Claudio Felisoni de Angelo

Groucho Marx seria contra o fim do rotativo

Quanto mais alta a taxa de juros, maior a atratividade da oferta crédito para as pessoas detentoras de condições cada vez mais precárias de saldar as dívidas

Groucho e o rotativo

“Jamais entraria para um clube que me aceitasse como associado”, disse Groucho Marx | Foto: Reprodução

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campo Neto, participando recentemente de uma sessão plenária do Senado na qual expunha aspectos associados à política monetária, mencionou que estavam em andamento no âmbito da autarquia estudos visando o fim do crédito rotativo fornecido pelos cartões de crédito. Imediatamente uma grande polêmica se estabeleceu, surpreendendo, aparentemente, o próprio presidente do BC.

Muitos representando o comércio se apressaram em se manifestar contrariamente. Posição justificável. Segundo pesquisa do SPC – CNDL, nada menos que 62 milhões de pessoas no Brasil, em números redondos, se valem das compras parceladas. Além disso essa posição é reforçada pela estagnação do volume de vendas desde o início de 2020 até o começo de 2023, quando os indicadores passaram a registrar alguma recuperação.

Porém, a profusão da oferta de cartões, os juros altíssimos (média em julho de 426% aa.) de um lado e o aperto orçamentário das famílias decorrente da contração da renda real, tem aumentado a inadimplência de modo progressivo. Com afirma o presidente do BC: “O resultante disso foi uma inadimplência no rotativo de 52%. Não tem nenhuma inadimplência, nem parecida, em nenhum outro lugar do mundo…”.

Esse elevado percentual tem empurrado a taxa global de inadimplência, pessoa física, sistematicamente para cima. Portanto, encontrar formas alternativas aos empréstimos rotativos é uma medida essencial de suporte ao crescimento do consumo de modo sustentável. Velho dilema entre o imediato e o perene. No curto prazo o rotativo ajuda a manter as vendas. A médio e longo prazos essa situação é insustentável. Ou seja, é como um atleta disputando uma prova valendo-se de anabolizantes.

Há duas possíveis alternativas. Uma é estabelecer o parcelamento após certo período fixada a taxa de juros. Uma alternativa seria simplesmente limitar os juros nas operações rotativas, entretanto, isso implicaria na redução da oferta de cartões. Nas palavras de Campos Neto: “Para as pessoas que têm mais risco os bancos não ofereceriam aquele cartão, devido a uma relação de risco e retorno ineficiente.”

Desta forma, é preciso de fato promover mudanças e o BC está absolutamente correto. A manutenção desse modelo só fará com que as coisas piorem, inclusive, é claro, para o varejo e o consumo de modo geral.

Por quê? O comediante norte-americano Groucho Marx (1890-1977) explica: “Jamais entraria para um clube que me aceitasse como associado”. Essa ideia foi teorizada anos mais tarde, em 1970, por George Akerlof, em um trabalho seminal intitulado: “The Market for Lemons: Quality Uncertainty and the Market Mechanism” (Falha de mercado conhecida como Seleção Adversa).

Colocando nos termos do que está sendo discutido, quanto mais altas as taxas de juros, maior a atratividade dessa oferta crédito para as pessoas detentoras de condições cada vez mais precárias de saldar as dívidas.

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Claudio Felisoni de Angelo é professor e coordenador de Projetos da FIA Business School, ligada à Fundação Instituto de Administração da USP. Preside o conselho Laboratório de Finanças e Programa de Administração de Varejo da FIA. É professor titular do Departamento de Administração de Empresas da FEA/USP e presidente do IBEVAR - Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo.

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