close

Jéfferson Colombo

Símbolos, fundamentos e o colapso dos criptoativos

Nem tudo é má notícia no momento que o mercado de criptoativos atravessa, e os episódios recentes podem catalisar o seu amadurecimento e tornar o ecossistema mais sólido

Conceito de criptoativos presos a bola de imã de metal

O atual cenário desafiador para os criptoativos relembra os investidores de que esse é um mercado de altíssimo risco, cujas decisões carecem de análise profunda | Foto: Getty Images

À frente da Bolsa de Valores de Nova Iorque, uma escultura de um touro imponente e confiante é destino de milhares de turistas diariamente. Mais do que uma simples imagem, a obra do italiano Arturo Di Modica simboliza coragem, otimismo e prosperidade, atributos comumente associados à bonança do mercado financeiro. Curiosamente, a obra foi encomendada logo após o crash da bolsa de valores de 1987, episódio conhecido como a “segunda-feira negra”.

Símbolos à parte, o touro de bronze – ou qualquer outro emblema – não altera a natureza cíclica dos mercados: períodos de alta (“bull market”) são sucedidos por períodos de baixa (“bear market”), que são sucedidos por períodos de alta. Esses fenômenos cíclicos são observados na atividade econômica, no mercado de crédito e no preço dos ativos de risco. A grande novidade do período baixista que estamos passando – que se une aos mais de vinte e oito episódios de “bear market” nos últimos cem anos do mercado acionário americano – é que ele atingiu também uma nova, emergente e popular classe de ativos: os criptoativos.

Os criptoativos se popularizaram muito desde a segunda metade de 2020. A entrada massiva de investidores institucionais e corporativos trouxe capital novo e fomentou o desenvolvimento de produtos e serviços inovadores, como aplicações de finanças descentralizadas e tokens não fungíveis (NFTs). Foram tempos de bonança: inúmeros projetos surgiram e conseguiram financiamento, e a maioria se valorizava. Como virtualmente qualquer token subia de preço, pouca atenção era dada às bases concretas dos projetos, como potencial da solução tecnológica proposta, concorrência, qualidade da equipe envolvida, governança etc. Em síntese, quando a liquidez é alta e os agentes estão excessivamente otimistas, as avaliações dos riscos não passam da superfície. Esse é um fenômeno que se repete ao longo da história financeira, porém é exacerbado quando os ativos transacionados possuem detalhes altamente técnicos, muitas vezes incompreendidos, e quando há enorme incerteza quanto ao seu valuation – caso dos criptoativos.

Quando o bear market vem, no entanto, o escrutínio dos investidores sobre o real potencial de cada projeto se torna muito mais forte. Investidores, em especial os não sofisticados, se dão conta que se trata de um mercado de retornos incertos, de altíssimo risco, e que nem todos os projetos são iguais – há bons e ruins. Mas isso não corre instantaneamente. Em um primeiro momento, com pânico e pessimismo generalizados, ondas de vendas e de liquidações (vendas automáticas de criptoativos usados por traders como garantias para operações alavancadas nas exchanges), o mercado não consegue separar os bons projetos dos ruins. Todos perdem valor – gera-se um equilíbrio agregador. Num segundo momento, no entanto, a tendência é que os investidores sejam mais criteriosos na avaliação de cada token ou projeto. Isso pode levar a um equilíbrio separador: enquanto alguns projetos desaparecerão, outros, novos ou já existentes, emergirão como vencedores. Para quem foca no longo prazo e acredita que inovações tecnológicas baseadas em registros distribuídos e descentralizados (por exemplo, blockchains) podem ser adotadas de forma massificada no futuro, resolvendo problemas reais, essa queda recente nas cotações pode ser uma oportunidade.

Dito isto, nem tudo é má notícia no momento que o mercado de criptoativos atravessa. No longo prazo, os benefícios podem suplantar os custos. Aos investidores e usuários, os episódios recentes revelam algo óbvio, mas que muitas vezes é por eles esquecido: trata-se de um mercado de altíssimo risco, cujas decisões de investimento devem ser criteriosamente avaliadas à luz de risco e retorno. Aos desenvolvedores e empreendedores, há uma oportunidade ímpar de focar na melhoria dos protocolos, na retenção e atração de talentos, e em estruturas sólidas de governança. No fim do dia, ao invés do colapso de um jovem e promissor mercado, os episódios recentes podem catalisar o seu amadurecimento e tornar o ecossistema como um todo mais sólido. Afinal de contas, tal como o touro de Wall Street não resolve os problemas do maior distrito financeiro do mundo, não é o “touro cripto” recentemente inaugurado em Miami que vai moldar o futuro do setor. Entre símbolos e fundamentos, prevalecem os fundamentos.


É professor de Finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), onde atua como Pesquisador Permanente do Centro de Estudos Quantitativos em Economia e Finanças da FGV (CEQEF/FGV). Possui doutorado em Economia Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), parcialmente realizado na Universidade de Illinois em Urbana Champaign (UIUC). É membro fundador do International Finance and Banking Society (IFABS) na América Latina e coordenador da FGV junto ao University Blockchain Research Initiative (UBRI). Autor e orientador de trabalhos premiados por entidades como Apimec, CORECON/RS e CFA Society Brazil.

Assine o Safra Report, nossa newsletter mensal

Receba gratuitamente em seu email as informações mais relevantes para ajudar a construir seu patrimônio

Invista com os especialistas do Safra