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Claudio Felisoni de Angelo

Na prática a teoria é outra

As estatais têm um papel extremamente importante no processo de industrialização e desenvolvimento do País, e não podem ser subordinadas aos interesses dos políticos

Prédio da Petrobras

Risco político e proximidade das eleições deixam as ações da Petrobras mais voláteis | Foto: Getty Images

Independentemente de quem venha a assumir o timão desse barco chamado Brasil, o movimento das águas será o mesmo, ou seja, ondas fortes vindas a bombordo e estibordo. De um lado a preocupante situação da economia americana e de outro as incertezas que permeiam o continente europeu. Essas, evidentemente, se espalham por todos os oceanos com riscos de tsunamis e terremotos.

O que se pode fazer já que o mar tem suas próprias escolhas? A resposta, é ao mesmo tempo óbvia e muito complexa. Obvia porque o que resta é cuidar do barco. Prepará-lo o melhor possível para os movimentos caóticos das águas. Mas, também complexo. O barco apresenta muitas fragilidades. Pena que os candidatos a timoneiro, como sempre acontece, apenas se digladiam para segurar o timão. Para onde e como o barco vai seguir fica para depois. É assim que a política é. Como se diz no Nordeste: na medida que o caminhão de jerimum segue os jerimuns vão se ajeitando. Pelo menos é o que se espera.

Há muitos pontos a considerar. Tome-se apenas um deles: o papel das estatais. Assim como em outras questões as opiniões se dividem. De um lado os ditos da esquerda e de outro os chamados liberais. As posições são opostas, mas não separadas por argumentos racionalmente conectados.

As estatais têm um papel extremamente importante no processo de industrialização e desenvolvimento do País. Aliás, para se conhecer com mais profundidade essa importância e como as empresas do estado se articularam com o capital nacional e as multinacionais vale a pena ler o texto de Peter Evans intitulado “A tríplice aliança”.

Tomem-se apenas as 46 estatais federais que estão sob controle direto do estado. Dessas uma parte (18) requer que o governo injete recursos na operação. Vinte e uma não dependem. Outras 5 estão na Bolsa (Petrobras, Banco do Brasil, Eletrobrás, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia). Ceasa Minas tem capital fechado e a Telebrás é dependente por meio de ações ordinárias.

Diversos são os argumentos que se apresentam em defesa das estatais. Talvez os que mais recorrentemente se colocam relacionam-se com a importância desse arranjo institucional para a Formação Bruta de Capital, a oferta de crédito e o apoio ao desenvolvimento e a mudança da matriz energética.

Em que pese o fato de que os investimentos privados na área de infraestrutura têm sido realmente baixos isso pode indicar que os mecanismos de atração não foram ainda suficientemente desenvolvidos. Ou seja, carência de termos orientados de modo equilibrado a preservação do interesse público de um lado, e de outro, ao estímulo a tomada de risco. A oferta de crédito também pode ser organizada por meio do setor privado, hoje muito mais competitivo do que no passado recente. O mesmo, pode-se dizer a respeito da área de energia.

Não há nada que teoricamente estabeleça que as empresas controladas pelo governo não possam ser tão ou mais eficientes que aquelas geridas pelos interesses privados. Teoricamente não há nada. Porém, no exercício do dia a dia, isto é, na prática a teoria é outra. As empresas controladas pelo estado são massa de manobra do estado. Na verdade, é pior do que isso. Não se subordinam as razões de estado, mas sim aos interesses imediatos dos políticos que temporariamente são os seus reais patrões.

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Claudio Felisoni de Angelo é professor e coordenador de Projetos da FIA Business School, ligada à Fundação Instituto de Administração da USP. Preside o conselho Laboratório de Finanças e Programa de Administração de Varejo da FIA. É professor titular do Departamento de Administração de Empresas da FEA/USP e presidente do IBEVAR - Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo.

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