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Claudio L. Lottenberg

O caminho à frente é o da telemedicina

Uma das marcas da pandemia, a telemedicina veio para ficar e vai tornar o sistema de saúde mais eficiente, para o bem da sociedade brasileira

A pandemia de covid-19 já tem lugar assegurado nos livros de história, quase que totalmente por razões negativas: os números imensos de óbitos e infectados; o acirramento da resistência de lideranças globais ao conhecimento científico; os danos causados à saúde mental; as dificuldades econômicas causadas em escala mundial; a lista ainda iria longe. Na chave positiva, muito pouca coisa há de deixar sua marca, e uma dessas coisas é a telemedicina – que não é uma onda passageira: ela veio para ficar.

O avanço do uso da internet e da tecnologia dos smartphones para colocar médicos e pacientes em contato ganhou forte impulso com a covid-19.

Com a necessidade de manter o distanciamento social, dado o caráter extremamente contagioso da doença, salas de espera de consultórios e de hospitais se tornaram lugares a se evitar – os riscos de exposição ao novo coronavírus em locais assim seriam enormes.

Isso fez com que o governo regulamentasse a prática em caráter excepcional e temporário – por meio da Portaria nº 467/2020 do Ministério da Saúde e da Lei Federal nº 13.989/2020.

A telemedicina cresceu na pandemia, dando mais eficiência à saúde | Foto: Getty Image

A telemedicina tem uma definição formal na Declaração de Tel Aviv (“Responsabilidades e Normas Éticas na Utilização da Telemedicina”), apresentada na 51ª Assembleia da Associação Médica Mundial, de outubro de 1999, realizada em Israel.

No Brasil, o CFM (Conselho Federal de Medicina) publicou em 2002 uma resolução que regulou a prática – mas com limites estreitos, que tornavam difícil sua implementação mais ampla.

O impulso que o emprego da tecnologia na área de saúde recebeu com a pandemia deu força ao surgimento das healthtechs (que são startups que operam nesse segmento).

A Distrito Dataminer informa que 2020 fechou com 617 healthtechs, que captaram no ano passado US$ 106 milhões – um crescimento de nada menos que 70% sobre 2019. Além disso, um levantamento (“Conectividade e Saúde Digital na vida do médico brasileiro”) de fevereiro de 2020 da APM (Associação Paulista de Medicina) já havia mostrado que, para 89,81% dos 2.258 médicos entrevistados, o sistema público de saúde do país poderia se beneficiar com ferramentas tecnológicas digitais que diminuíssem filas de espera.

A prática da telemedicina se mostrou efetiva e bem-recebida: cerca de 75% dos hospitais privados do país hoje já usam procedimentos on-line, e 58,3% dispõem de serviços próprios de telemedicina. Há espaço, portanto, para que a telemedicina se expanda cada vez mais. Isso a tornará mais acessível, com grande benefício para pacientes, que não mais terão que se deslocar para ir a uma consulta – reduzindo riscos de contaminação (e não só por covid-19), filas de espera e tornando o atendimento médico sempre mais eficiente.

Um outro benefício será a redução de custos, tanto para pacientes como para hospitais, clínicas e prestadores de serviço envolvidos. Ganhos de eficiência que beneficiarão a todos.

Claro que há ainda obstáculos com os quais lidar. Será preciso, por exemplo, que haja uma regulação definitiva. De caráter temporário, as regras hoje em vigor são inerentemente indefinidas, e isso tende a gerar insegurança ao longo de todo o processo. Não será com base em medidas de caráter excepcional que se poderá criar um sistema bem assentado e seguro para todos.

Há também que se considerar a presença da telemedicina no setor público. Embora existam hoje no Brasil mais linhas de smartphones (234 milhões, dado da FGV de junho de 2020) que brasileiros (211,8 milhões, segundo estimativa do IBGE), o serviço público ainda está em seus primeiros passos, como a plataforma do HCor e o Consultório Virtual Saúde da Família, que dá suporte à rede de Atenção Primária à Saúde (APS).

Com a capilaridade do SUS (Sistema Único de Saúde), a telemedicina tem potencial para levar atendimento de qualidade a rincões do país onde o serviço médico é, na melhor das hipóteses, precário. Há também espaço para iniciativas conjuntas com o setor privado. O potencial da telemedicina é mesmo o de causar uma transformação social da área da saúde.

E ainda será preciso capacitar os médicos, treiná-los para uma nova cultura de contato com os pacientes – que em grande parte vem se instalando, mas tem de ser sistematizada. As escolas de medicina precisarão integrar essa nova realidade a seus currículos para que as futuras gerações de médicos encarem a telemedicina como uma ferramenta costumeira.

Nos próximos anos, a tendência é que a telemedicina se torne cada vez mais habitual, com os contatos presenciais entre médicos restritos apenas aos estritamente necessários. O sistema todo se tornará mais eficiente, e a sociedade brasileira será a grande favorecida.


Claudio L. Lottenberg é mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

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