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Sidney Klajner

Sidney Klajner

O papel do setor privado na vacinação contra a Covid-19

O setor privado brasileiro tem muito a contribuir no esforço de vacinação contra a covid-19, mas sempre agindo em benefício de todos

O Brasil tem o maior e mais importante programa nacional de imunização do mundo, gerido pelo Sistema Único de Saúde. A Constituição brasileira determina que a saúde é um direito de todos a ser usufruído de forma equânime. Isto colocado, é fácil entender por que, neste momento, as vacinas contra o SARS-CoV-2 existentes no mercado mundial que possam ser adquiridas por nosso País devam estar à disposição do SUS.

É necessário que continue a ser assim enquanto houver escassez de imunizantes. Aos setores suplementar e privado de saúde cabem contribuir com apoio em logística para aplicação das doses, armazenamento e, por que não, aquisição de vacinas, desde que sejam ofertadas ao SUS.

Hoje, discutir se é adequado que empresas comprem vacinas para imunizar seus colaboradores ou vendê-las fere o princípio da equidade do sistema brasileiro de saúde, é antiético e totalmente imoral.

Se os argumentos em favor da similitude não são suficientes para afastar iniciativas do gênero, recorramos ao arrazoado científico. Qualquer campanha de vacinação só é bem-sucedida se toda ou a maioria da população for protegida contra o agente infeccioso que o imunizante visa conter.

O controle de surtos, epidemias ou pandemias só ocorre quando este objetivo é atingido. Ou seja, de nada adianta imunizar parte da população e deixar o restante de lado.

Esta situação cria circunstâncias perfeitas para que os vírus em circulação entre os não imunizados adquiram mutações que, lá na frente, podem prejudicar a eficácia das vacinas. Afinal, elas foram criadas contra um patógeno, não contra outro modificado por sucessivas alterações.

Por enquanto, porém, é bom lembrar que não há conclusões a respeito de eventual redução na eficiência dos imunizantes disponíveis contra as novas variantes do SARS-CoV-2. Nem mesmo para aqueles que insistem na dicotomia saúde X economia é um bom negócio a compra e oferta de vacinas pelo setor privado neste momento no Brasil.

À primeira vista, é tentador pensar em proteger a força de trabalho de sua própria empresa. A fábrica não para, a geração de receita continua e a roda de sucesso permanece a girar. Seria assim se, do lado de fora, o consumidor não continuasse temendo por sua vida e a de seus familiares e o vírus tivesse cessado de se espalhar.

Claramente isto não ocorrerá. Acabar com a pandemia é uma ação coletiva e exige muito mais do que pensar no próprio quintal. Em termos econômicos, por exemplo, a falta de vacinação contra a Covid-19 em todo o mundo de maneira minimamente concomitante pode custar aos países perdas de US$ 9,2 trilhões, metade delas recaindo sobre os países mais ricos.

O alerta foi feito pela Organização Mundial da Saúde ao chamar as nações mais ricas à responsabilidade de ajudar as mais pobres. O presidente da entidade, Tedros Adhanom, classificou de “nacionalismo de vacina” a corrida por imunizantes pelas nações desenvolvidas em contraste com o pequeno poder de compra das mais carentes.

O poeta e pastor inglês John Donne (1572-1631) escreveu que “nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.” Também disse que nunca se perguntava por quem os sinos dobravam. Como fazia parte da humanidade, sentia-se diminuído a cada badalada anunciando uma morte. “Os sinos dobram por mim.”, escreveu.

As frases permanecem atuais e talvez ainda mais vivas diante da certeza de que o mundo, hoje totalmente globalizado, só vencerá o coronavírus se atuar conjuntamente. O setor privado brasileiro tem muito a contribuir neste sentido, mas sempre agindo em benefício de todos.


Cirurgião do Aparelho Digestivo e Coloproctologista, graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), autor de 11 trabalhos em cirurgia digestiva publicados em revistas internacionais e coautor de 5 livros. Vice-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein de 2010 a 2016, atualmente preside a instituição.

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