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Joaquim Levy

Prioridade Número Um

Chegou a hora de acelerarmos o progresso havido na educação nos últimos 25 anos e de fazermos da iminente volta às aulas a grande revanche de tudo que perdemos na pandemia

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Crise valorizou trabalho dos professores e levou-os a se familiarizarem com conteúdos digitais | Foto: Getty Images

Nas últimas semanas, milhões de brasileiros têm se reencontrado com o país de que se orgulham. No posto de vacinação achamos aquele país construído sem ruído, com a participação de todos e voltado a atender o interesse geral. Com maior ou menor fila, somos vacinados e passamos a poder cuidar da vida e usufruir a companhia de quem gostamos com mais tranquilidade e sabendo que todos estamos protegidos. É uma experiência coletiva e quase cívica, como nas eleições, quando votamos e horas depois temos os resultados anunciados com segurança e a democracia e a unidade da nação reafirmadas.

Vencido o marco da vacinação, começa em agosto a maior batalha de superação da Covid, que também envolve uma construção de muitos.  Enquanto a atividade econômica voltou com força na esteira dos quase R$ 1 trilhão de aumento da dívida pública em 2020, a educação pública ainda tem que superar as perdas da suspensão das aulas presenciais nos últimos 18 meses. 

A interrupção das aulas poderá custar outro trilhão de reais para milhões de crianças e jovens, se não houver uma recuperação do tempo perdido.[i]  Se até nas férias as crianças perdem um pouco do que aprenderam no ano anterior, o que dizer de ano e meio longe da escola, mesmo onde mecanismos alternativos foram adotados?  Mas, não é hora de lamentar, e sim de focar nas ações que podem trazer bons resultados, aproveitando as experiências havidas durante a pandemia, como salientado pelo economista Ricardo Henriques[ii].

Crises tendem a acelerar processos. Sessões remotas e tecnologias digitais também cresceram na educação pública durante a pandemia.  Mesmo nos estados mais pobres, como o Maranhão, criaram-se plataformas acessíveis por celulares com conteúdo amplo e vibrante para várias faixas de idade, e portais para ligar aluno, professor e escola. 

A crise, que valorizou o trabalho dos professores[iii], levou-os a se familiarizarem com conteúdos digitais e usá-los mais. Isso permitirá dar maior impulso ao ensino chamado de híbrido, que se baseia nessa integração e vinha avançando gradualmente, com a participação de muitos agentes, inclusive do BNDES, como constatei quando lá estive e me lembrou recentemente Claudia Costin. Muitos professores descobriram que esses recursos não são uma ameaça ou uma limitação, mas um bom instrumento para alavancar sua atuação, tornando a aula mais rica e aderente ao currículo que o aluno precisa aprender.

Alinhamento ao currículo, com material de apoio digital e interativo, envolvimento de pais e professores e exames frequentes e padronizados têm sido uma combinação de sucesso para engajar estudantes e melhorar os sistemas de ensino. Ela permite a identificação e apoio a quem está com dificuldade, levando a melhoras nos índices de desempenho escolar (Ideb) em situações tão diversas como o ensino médio de Pernambuco ou o fundamental na cidade do Rio de Janeiro.  

Pelo seu potencial, os especialistas tem apontado a importância e urgência de se estimular o ensino híbrido na volta às aulas, promovendo os professores e a conectividade das escolas.  Isso não requer um programa bilionário de distribuição de “tablets”, mas, por exemplo, a entrega de chips para alunos carentes e atenção especial aos pequenos municípios sem estrutura pedagógica tão desenvolvida ou conectividade adequada.

A penetração do ensino no interior é outra das transformações do Brasil dos últimos 20 anos, em paralelo com a expansão do ensino superior privado, que permitiu o número de alunos nas faculdades brasileiras triplicar para 8.5 milhões. 

Entre as iniciativas para a difusão geográfica do ensino médio e superior nesse período está a expansão da rede federal de educação profissional, científica e tecnológica a partir de 2005. São quase 650 escolas técnicas e institutos nos rincões mais distantes, inclusive da Amazônia, cujos quase 40 mil professores concursados de dedicação exclusiva correspondem ao grosso do aumento do número de servidores federais nos últimos 15 anos.

Pode-se arguir sobre a produtividade dos R$ 14 bilhões gastos por ano na rede e o foco do quase meio milhão de vagas oferecidas. Mas há indicações de que os egressos das escolas técnicas têm boa nota no ENEM e de que a vida dos estudantes e das cidades que contam com um campus tem sido transformada. Mesmo com a plataforma Nilo Peçanha, que consolida os dados da rede, indicando que muitos dos cursos são de licenciatura e que bem mais alunos neles ingressam do que se formam. A rede, que também sofreu com a Covid, é um ativo a ser acompanhado, até pelo desafio imediato de garantir uma formação impecável aos concluintes dos seus cursos, para que eles vençam em uma economia mais competitiva.

A Covid levou Carlos Geraldo Langoni, um dos pioneiros na quantificação do impacto da educação na renda dos brasileiros. É mais uma razão para fazermos da iminente volta às aulas a grande revanche de tudo que perdemos na pandemia e a hora de acelerarmos o progresso havido na educação nos últimos 25 anos!

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Nesse segundo semestre, também é preciso resgatar a liderança que já tivemos no tema ambiental, porque a agenda global nessa área está se acelerando. O anúncio de um mecanismo de ajuste de carbono na fronteira feito pela União Europeia é um alerta, inclusive para valorizarmos as tecnologias de baixo carbono que dominamos. Esse é o caso do aço verde, produzido com carvão vegetal de florestas plantadas, que pode ter emissão de CO2 zero ou até negativa, dependendo de como a pirólise do eucalipto se dá. Com respaldo diplomático, esse aço pode ter seu valor reconhecido, tornando-se mais competitivo e auxiliando na expansão de florestas em áreas degradadas do Sudeste, com influência na hidrologia da Região[iv].

[1] https://www.insper.edu.br/conhecimento/politicas-publicas/pandemia-ameaca-jovens-de-empobrecimento-duradouro/

[1] O Globo, 15/7/2021

[1] https://fundacaolemann.org.br/noticias/pandemia-faz-familias-valorizarem-mais-os-professores

[1] https://editorabrasilenergia.com.br/o-efeito-da-cobertura-vegetal-sobre-a-producao-de-energia-eletrica/

* Publicado originalmente no jornal Valor Econômico



Joaquim Levy é diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados no Banco Safra. Ex-Ministro da Fazenda, Levy é engenheiro naval pela UFRJ, mestre pela FGV e PhD em economia pela Universidade de Chicago. Tendo sido CFO e DIretor Gerente do Banco Mundial e Vice-Presidente de Finanças do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ele foi Presidente do BNDES e Secretário do Tesouro Nacional do Brasil, além de ter trabalhado no mercado financeiro, tendo sido responsável por uma das principais gestoras de ativos do país.

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