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Ilton Caldeira

Redesenho dos Estados Unidos passa pelo Brasil

O U.S. Census Bureau mostra migração interna nos EUA e também o movimento de milhares de brasileiros atraídos pelas oportunidades no Texas e na Flórida

População nas ruas de NY

Novo mapa demográfico dos Estados Unidos terá impactos em muitos aspectos , a começar pela redistribuição dos recursos que cada estado recebe | Foto: Getty Images

O U.S. Census Bureau, órgão que cuida da coleta de dados e estatísticas sobre a população americana, entre outras informações relacionadas com as tendências demográficas, divulgou no fim de abril os primeiros números do levantamento realizado em 2020.

Os resultados apontaram que a população residente dos Estados Unidos, nos 50 estados e no Distrito de Columbia, é de 331,4 milhões de pessoas, um crescimento de 7,4% desde o Censo passado, realizado em 2010.

Esse foi o segundo menor crescimento populacional do país, ligeiramente acima ao registrado na década de 1930, quando o país ainda enfrentava os duros efeitos da Grande Depressão, no intervalo entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial, um período único na história da humanidade.

Mas muito além dos dados macro sobre o crescimento da população, os números do censo apontam para um redesenho da sociedade americana e uma mudança no eixo do poder na maior potência econômica e política do mundo.

A representação no Congresso americano, ou seja, o número de assentos que cada Estado tem no parlamento, é definida com base na população de cada região, de acordo com os dados do censo. Durante décadas esse poder estava concentrado nos estados do Centro-Oeste e Nordeste dos Estados Unidos.

Agora esse núcleo do poder migrou para os estados do Sul e Oeste do país. Sendo assim, o Texas ganhará duas cadeiras no Congresso americano. Colorado, Flórida, Montana, Carolina do Norte e Oregon ganharão uma cadeira. Já a Califórnia, Illinois, Michigan, Nova York, Ohio, Pensilvânia e West Virginia perderão assentos.

Para além do xadrez político, o novo mapa trará impactos imediatos em muitos aspectos da vida americana, a começar pela redistribuição dos recursos que cada estado recebe do Governo Federal.

O censo confirmou uma tendência que já vinha sendo percebida no cotidiano do país: estados como Texas e Flórida mostram onde está o futuro da América na atual década e talvez nas seguintes. Os dois estados vêm ampliando a força econômica, atraindo as maiores corporações financeiras e de tecnologia.

Austin, capital do Texas, e seus arredores atraem cada vez mais grandes conglomerados de TI. Na Flórida, Miami virou a queridinha do setor financeiro, assim como Tampa, que já vinha desenvolvendo uma vocação abrigando diversas instituições bancárias e fundos de investimentos. Orlando, na região central da Flórida, tem conseguido diversificar a economia. Graças também ao setor de tecnologia.

A volta das missões espaciais tripuladas da NASA, em Cabo Canaveral, deram novo impulso para que empresas dos mais variados ramos, que trabalham com contratos de prestação de serviços, fornecimento de tecnologia e insumos para a agência espacial americana voltassem a atuar com força na Flórida.

Com essa movimentação, o estado registrou um ganho de 14,6% na população entre 2010 e 2020, totalizando 21,5 milhões de habitantes. Projeções da Orlando Economic Partnership indicam que só a região de Orlando vai adicionar 1.500 pessoas por semana e chegar a 5,2 milhões de pessoas até 2030.

Se os americanos sentiram a necessidade de realizar essa migração interna, a última década mostrou que milhares de brasileiros também foram atraídos pelas oportunidades e se estabeleceram fortemente nos Estados do Texas e, principalmente, na Flórida.

É difícil precisar com exatidão o número de brasileiros vivendo nos Estados Unidos. Após uma Ordem Executiva do presidente Joe Biden, o Census Bureau informou que nenhum dos dados do censo de 2020 incluiria detalhes sobre origem ou status de imigração, em qualquer nível geográfico. Alguns números não-oficiais apontam para uma população de cerca de 450 mil brasileiros nos EUA. Mas estimativas independentes sugerem que o número de brasileiros vivendo em solo americano já supera a marca de um milhão de pessoas.

Independente do status imigratório, o fato é que muitos brasileiros tiveram filhos no país. Outros, que vieram nas primeiras ondas migratórias, já aprofundaram ainda mais esses laços e estão com várias gerações de nascidos nos Estados Unidos. Essa população com voz e direito ao voto deve crescer mais até 2030, ampliando a busca por maior participação política e nos processos de tomada de decisões.


Ilton Caldeira é jornalista de Economia e Política e especialista em Relações Internacionais pela FGV-SP. Nos Estados Unidos é Head de Comunicação da Dell’Ome Law Firm e sócio da consultoria Smart Planning Advisers.

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