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Lina Nakata

Saúde mental e burnout não saem de moda

Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais aponta que a falta de saúde mental provoca perdas de R$ 400 bilhões por ano no Brasil

Saúde mental

Saúde mental e burnout não saíram mais de moda após a pandemia de covid, e, devem continuar dominando as pautas das áreas de recursos humanos Foto: Getty Images

Saúde mental é um tema que veio com tudo na pandemia da covid-19, batendo o seu pico de buscas no Google Trends em junho de 2020. Podemos observar outro momento de alta em junho de 2022 e esse termo não tem se mostrado com uma tendência decrescente. Por sua vez, burnout surgiu com dois picos bem elevados em junho e setembro de 2019, meses antes do início da pandemia, com outro momento de alta em janeiro de 2022.

No gráfico projetado pelo Google Trends, podemos notar que o termo burnout é mais buscado que saúde mental, com menos variações, mas saúde mental apresenta uma semana fora da curva três meses após o decreto do isolamento social no Brasil.

A linha azul corresponde às buscas por “saúde mental”, e a vermelha referem-se ao termo “burnout” nos últimos cinco anos

De forma geral, as buscas de burnout eram mais relevantes até março de 2020 e, por um ano, até abril de 2021, este termo se deixa vencer pela saúde mental. Certamente, nunca se falou tanto nisso e as empresas passaram a cuidar mais da cabeça dos colaboradores, afinal ninguém poderia se esgotar completamente num período delicado da economia. E depois, só há uma inversão novamente em julho de 2022.

Desde o fim de 2021, temos observado o retorno aos escritórios – com trabalho híbrido, na maioria das vezes – e temos vivenciado o tão falado “novo normal”. E, com isso, saúde mental e burnout não saíram mais de moda, devem continuar dominando as pautas dos RHs, das lideranças e dos jornalistas de negócios. Inclusive, os termos continuam sendo bem procurados, já que os casos não desaparecem rapidamente. Os efeitos causados pelas novas dinâmicas de trabalho – e de vida pessoal e familiar – foram profundos e ainda precisamos de mais soluções.

As mulheres são as mais afetadas por esse fenômeno: de acordo com o estudo da FEEx – FIA Employee Experience, realizado com 188 mil pessoas de 419 empresas brasileiras em 2022, os índices de estresse excessivo são 12% mais altos para o público feminino do que para os homens. Mais que isso, as mulheres têm 73% mais chances de sofrer com burnout. No geral, segundo o levantamento, três em cada dez profissionais sofrem com algum nível de estresse.

De acordo com um estudo da Deloitte (2021), as empresas precisam mudar a forma como conduzem seus negócios, passando a colocar o funcionário no centro da organização, tornando o bem-estar das pessoas como algo estratégico. Entende-se que a função do RH também deve ser transformada. O relatório indica que as empresas devem mudar o mindset de sobrevivência para um de prosperidade. É necessário ter as pessoas como principais aliadas.

E por que isso deveria preocupar as organizações? Um levantamento feito pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (2023) apontou que a falta de saúde mental entre os colaboradores, no Brasil, provoca uma perda no faturamento de R$ 400 bilhões por ano. Se não conseguirmos justificar pelo fator humano, podemos convencer pelo dinheiro.

Na prática, podemos visualizar as perdas por meio do presenteísmo: US$ 5.788 por ano, por pessoa (de acordo com um artigo acadêmico de Evans-Lacko e Knapp, de 2016). O que é presenteísmo? É aparentar que está lá, mas não está! É o fenômeno de se estar com o corpo presente no ambiente de trabalho, mas que por vários motivos, não há produtividade. A pessoa está fisicamente, não mentalmente. É diferente do absenteísmo, em que a pessoa nem se apresenta. O presenteísmo pode ser pior, e isso agrava a saúde mental – e entendo que não somente da própria pessoa, mas da equipe como um todo, que entende que não pode contar com esse membro.

A International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR) revela que 23% das pessoas são presenteístas, sendo até 35% nas indústrias. Além de afetarem diretamente nas perdas para as empresas, 89% dos presenteístas sentem dores no corpo, 86% têm problemas com ansiedade e 81% sentem angústia com frequência. Além disso, em recente estudo promovido pela Cigna, 61% dos profissionais relatam que se sentem solitários. A solidão é outro efeito percebido nos últimos anos, relacionada à desconexão social, sendo também um problema organizacional. De acordo com a EY, 49% das pessoas se sentem mais sozinhas hoje do que antes da pandemia.

Nessa época de “novo anormal”, é mais do que importante se cuidar fisicamente, mentalmente e socialmente, pois os prejuízos podem ser enormes no intangível e no tangível. Vamos cuidar da nossa saúde para manter uma vida feliz e produtiva.

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Professora e pesquisadora da FIA Business School, co-presidente da Professional Women Network (PWN-SP), diretora de marketing da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração e diretora de carreiras da Sempre FEA. Leciona também na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Insper, ESEG e Uneed.

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