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Sandra Teschner

Vitórias da geração ‘cringe free’

Enquanto os mais jovens trocam farpas por o que é ou não contemporâneo, pessoas com outras idades descolam-se das expectativas geracionais e usufruem de bem-estar emocional estável

Geração perennial

A geração ‘sem idade’ é mais disponível para o trabalho, curiosa e voltada a causas sociais | Foto: Getty Images

“O que é cringe?” foi uma das perguntas mais feitas no Google nas últimas semanas. O termo, do verbo inglês envergonhar, virou adjetivo nas redes sociais brasileiras para designar o que causa constrangimento. Trata-se, na verdade, de um debate entre a geração Y, os millenials (nascidos entre 1985 e 1999) e a Z (nascidos a partir dos anos 2000). 

Como de costume, os mais jovens criticam alguns comportamentos dos “mais velhos”, assim hábitos que representam a sempre descolada geração millenial ganharam status de cafona, talvez por isso mesmo o tema tenha repercutido tanto em rede. Gostar de café, de Harry Potter ou do seriado Friends, visitar a Disney, pagar boletos, usar emojis estão entre as situações consideradas dignas de sentimento de vergonha alheia. 

Enquanto os mais jovens trocam farpas entre si pela apropriação do que é ou não contemporâneo, pessoas com outras idades, muito além deles e seus máximos 35 anos, pouco se importam com as atitudes esperadas delas; vivem, ao contrário disso: descolando-se cada vez mais das expectativas baseadas nas orientações clássicas de padrões comportamentais geracionais e, por isso, vêm sendo considerados a “ageless generation”, ou a geração sem idade mesmo, esta que, muito além da liberdade de assumir seus cabelos brancos, é mais feliz e vive com bem-estar emocional estável e resiliente às provações da pandemia da covid-19. 

A felicidade pode ser medida e é isso que faz, por exemplo, o Relatório Anual Mundial da Felicidade (World Happiness Report), que representa uma visão autorizada sobre a condição de bem-estar subjetivo em 150 países. Não é surpresa alguma dizer que o relatório mostrou um aumento expressivo de depressão e ansiedade em todo o mundo em 2020, tendo em vista o momento histórico particular que todos vivemos. Interessantes ficam, porém, as afirmações de que a geração 50+ não só está mais feliz como mais satisfeita com o trabalho, se comparada aos mais jovens. O cenário foi confirmado por uma pesquisa realizada na Itália, feita pelo Instituto Ricerca Felicitá

Nessa pesquisa, a coleta de dados envolveu 1314 pessoas da população ativa italiana pertencentes às quatro gerações (baby boomers, geração X, millennials e Z). Considerou pontos centrais da vida profissional, social e pessoal para investigar os graus de felicidade em geral, as respostas à solidão e ao isolamento, a satisfação no trabalho, o sentimento de pertencimento e de reconhecimento e drives como discriminação e o propósito.

Segundo Elisabetta Dallavalle, presidente do Instituto, o ponto de partida foi o ambiente profissional, mas o foco da análise se manteve às respostas individuais. Os resultados da pesquisa mostram que entre baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964), a crença em que seus méritos são devidamente reconhecidos cresceu durante a pandemia, em uma proporção 31% maior em relação às outras gerações, a dos mais jovens, que, somadas chegaram a uma média de 20% nesse aumento de senso de reconhecimento. 

Resultado semelhante foi alcançado considerando a felicidade e a satisfação com a vida em geral, verifica-se que, entre aqueles que fazem parte da chamada geração Z, apenas 19% – contra 28% dos baby boomers – sentem que sua vida está se aproximando de seu ideal. 

A solidão e o isolamento também parecem ser sentidos mais pelos mais jovens do que pelos adultos: vai de 21% a 10% (do mais jovem ao mais velho) daqueles que vivenciam esses problemas e de 42% a 57% dos que não se sentem particularmente afetados pelo problema.

Os marcos geracionais costumam ser usados para definir traços predominantes de comportamento de uma época, levando em consideração fatores como eventos marcantes, inovações, acontecimentos históricos. Assim, em tese, fica mais fácil entender a motivação das pessoas, suas opiniões e atitudes ao encaixá-las pela idade que elas têm.

A grande vantagem de fatiar as gerações atribuindo-lhes características próprias é entender as diferenças, para assim promover um melhor relacionamento com cada uma delas. Para o marketing de consumo, os marcadores geracionais servem como guias. Contudo, a ideia dessa construção social e das repetições como determinantes comportamentais não define um grupo alternativo chamado de perennials

Uma analogia aos millenials e ao fato de ser uma geração perene, sem idade específica, acima de 35 anos; a alcunha foi usada pela primeira vez pela jornalista Gina Pell, cocriadora do The What. Segundo Pell, “perennial é um indivíduo cujo estilo de vida contém gostos e hábitos de diversas faixas etárias, estando fundamentado em identidade social e não cronológica”.

Geração ‘sem idade’ é mais apta a desenvolver novas habilidades e valoriza os relacionamentos

Logo, a geração ageless apresenta traços comuns às mais diversas gerações, num mix próprio de estilos. São comumente descritos como curiosos, voltados às causas sociais, têm amigos de faixas etárias diversas, são tecnológicos, abertos ao aprendizado, bem como buscam desenvolver novas habilidades e conhecimentos. Apresentam um gosto para o risco, para a ousadia, possuem mente aberta, apaixonados, confiantes. perennials gostam de serem reconhecidos como tal, basta uma busca com a hashtag em redes sociais e esta afirmação fica clara.

Alguns autores descrevem esta geração como incorporadores dos melhores traços dos boomers (trabalhador, com base em valores) e os da geração millennial (curiosos, conhecedores de tecnologia), oferecendo às empresas a vantagem de serem mais fiéis do que as gerações mais jovens, cujo fator determinante é a satisfação da curiosidade intelectual, enquanto um perene pode durar mais tempo porque simplesmente gosta das pessoas com quem trabalha. Os perenes também se orgulham da bagagem de suas experiências.

Estamos ficando mais velhos, mais cedo do que esperado, porém, a boa notícia é que é possível reverter este quadro e ainda incrementar os anos de vida, dobrando essa curva favoravelmente. É mais ou menos assim: há um prazo de validade, mas, se bem cuidado, o tempo o fará bem, muito mais do que se imaginava.

A neurociência vai além e corrobora com a existência de indivíduos que estão se aproximando da “velhice” em velocidades diferentes. Isso é o que mostraram estudos sobre o envelhecimento mental, liderados por Bruce Yankner, professor de neurologia da Harvard Medical School, segundo os quais, se, por um lado, a partir dos 40 anos, inicia-se o desgaste do cérebro e os danos genéticos; por outro, essas taxas de envelhecimento do cérebro são variáveis, sugerindo que as alterações deletérias podem ocorrer muito mais cedo do que se pensava, mas esta não é uma verdade absoluta, uma vez que apresentam diferentes resultados a depender do estilo de vida do indivíduo. 

Os dados também indicam que nossos cérebros contêm mecanismos de proteção e reparo que podem compensar o dano genético. Em outras palavras, uma mudança de estilo de vida em adultos jovens pode retardar o declínio cognitivo, além de proteger e postergar o aparecimento de doenças cerebrais em anos posteriores. 

Geração dos que passaram dos 50 faz uso inteligente das emoções

Entre os fatores propulsores dessa nova produtividade em gerações acima de 50 anos estão o uso inteligente das emoções, melhores cuidados com a saúde física e mental, maior escolaridade, curiosidade, construção consciente da felicidade e desenvolvimento intelectual. Um estudo da Universidade de Berkeley revelou que o ápice da nossa Inteligência Emocional se dá por volta dos 60 anos de idade (UC BERKELEY, 2010).

Um reflexo da disrupção causada pelos perennials é a Economia Prateada, que, segundo definição do Oxford Economics, é a soma de todas as atividades econômicas associadas às necessidades das pessoas com mais de 50 anos e os produtos e serviços que elas consomem ou virão a consumir.

Desde 2019, há mais idosos no mundo do que crianças, o nível de reposição demográfica, ou seja, a quantidade de filhos necessária para garantir a substituição das gerações está em decréscimo, segundo dados da ONU. O Brasil, por exemplo, já tem mais avós do que netos.

Os novos idosos urgem para o despertar de uma consciência que, mais cedo ou mais tarde, impactará a todos nós, segundo Layla Vallias cofundadora do Hype60+ e correlatora do estudo TSUNAMI60+: “o consumidor sênior já não é mais o mesmo, é mais fácil encontrar um 60+ na academia do que na cadeira de balanço”. A pesquisa publicada em outubro de 2020 mostra que a economia prateada já é a terceira maior atividade econômica no mundo e, no Brasil, eles são responsáveis pela maior fatia da renda da família e da gestão financeira do lar. 

Entre os entrevistados com mais de 55 anos, 24% afirmam que a falta de espaço no mercado de trabalho é a segunda maior perda que vem com a idade, atrás apenas da perda física. Enxergam, por outro lado, os novos formatos de trabalho como uma oportunidade para continuar na ativa por menos horas, conciliar trabalho com lazer sem impactar os sonhos da aposentadoria e ter uma renda necessária ao planejamento financeiro para a longevidade.

O trabalho voluntário também ganha espaço na rotina: 23% afirmam realizar alguma atividade voluntária semanal; entre os 75+, 12% afirmam que esse trabalho é diário; e 34% desejam se dedicar a trabalhos voluntários no futuro. 

Vallias, em seu artigo sobre o estudo, afirma que: “A longevidade é uma das grandes conquistas da humanidade e chegou a hora de revermos nossos conceitos sobre essa fase, que em breve será a maior de nossas vidas.”

Estudiosos afirmam que já está entre nós a pessoa que vai viver mais de 200 anos. Precisamos nos preparar para uma vida com cada vez mais tempo e para consumidores cada vez mais maduros! 

Estudos de causalidade em felicidade (Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia) confirmam que o treino de habilidades cognitivas resultam no incremento de bem-estar subjetivo no indivíduo. Uma vez felizes, somos mais criativos, produtivos, com maior capacidade regenerativa, alta imunidade e até vivemos mais. Analogamente, o futuro não é um estado real, nós somos, e nós podemos ser velhos, ou atemporais, podemos ser idosos à espera do fim, ou perennials que andam por aí “gerundiando” entre “ser aprendiz”, ou “ser mentor” ao gosto do dia. O que a ciência comprova progressivamente é uma afirmação trivial de que quem somos e seremos depende fundamentalmente de nossas escolhas. Depende de nós – e não da nossa idade cronológica. 


Administradora de empresas, pós-graduada em Neuropsicologia e Chief Happiness Officer certificada pela Florida International University. Fundadora do Instituto Happiness do Brasil, um centro de estudos e projetos de Felicidade Intencional. É jornalista, autora, palestrante e engajada social.

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