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Robôs desempregados buscam novos desafios

Os robôs humanoides fracassaram até agora no mercado de trabalho, mas a pandemia abriu oportunidades para eles – nas arquibancadas vazias, por exemplo

Robôs substituem torcida em jogo de beisebol no Japão, por causa da pandemia | Foto: Reprodução

Os robôs com aspecto humano fracassaram em diversas atividades onde foram testados nos últimos anos. Mas os fabricantes insistem em tentar buscar novas funções onde eles possam ser úteis. A última aposta é usar os robôs humanoides como substitutos dos torcedores em eventos esportivos, para animar os atletas em tempos de pandemia. O Japão vai tentar emplacar os robôs nessa função durante as Olimpíadas.

A SoftBank Robotics, que comercializa o robô chamado Pepper, lançado em 2014, enviou recentemente 100 robôs para atuarem como líderes de torcida para um time profissional de beisebol do SoftBank, o SoftBank Hawks, em Fukuoka, no sul do Japão. O estádio tem pouca gente por causa das restrições do Covid-19. Kitamura, porta-voz do SoftBank Robotics, disse que os robôs poderiam aumentar o entusiasmo sem risco de infecção.

Na internet, porém, os comentaristas disseram que a cena os lembrava de uma distopia. Hirofumi Miyato, 56, de Tóquio, estava assistindo a um jogo na televisão e viu o grupo Pepper em uniformes de equipe movendo seus braços em uníssono. “Aquilo me lembrou de um desfile militar na Coreia do Norte ou na China”, disse Miyato à reportagem do The Wall Street Journal.

O SoftBank Robotics diz que o robô Pepper ainda trabalha ensinando crianças e entretendo as pessoas em um café em Tóquio, entre outros trabalhos. Durante a pandemia, Pepper encontrou um nicho como porteiro em hotéis onde os pacientes covid-19 estavam alojados e funcionários humanos estavam tentando manter distância.

Tirando as vagas abertas na pandemia, os robôs em forma de humanos encontram dificuldades no mercado. Eles já são encontrados em sites de artigos de segunda mão e pelo menos uma empresa abandonou o produto e passou a fazer robôs em forma de animais de estimação.

Robô pastor de velório perde emprego

Um rôbô lendo orações em funerais parecia uma boa ideia da Nissei Eco, uma fabricante japonesa de plásticos om atuação no setor funerário. A empresa contratou o robô pepper, vestiu-o com roupas de monge budista e programou-o para cantar vários mantras e orações, dependendo da seita do falecido.

O robô fabricado pela SoftBank Group apresentou tantos problemas durante os testes que a empresa acabou desistindo do projeto. “Se o robô parasse de orar no meio de uma cerimônia fúnebre seria um desastre”, disse o gerente de negócios funerários Osamu Funaki.

O robô foi demitido antes de começar a trabalhar e a Nissei encerrou o contrato de locação do robôs.

“Por ter a forma de uma pessoa, as pessoas esperam do robô a inteligência de um humano”, disse o especialista Takayuki Furuta, chefe do Centro de Tecnologia de Robótica do Futuro do Instituto de Tecnologia de Chiba, em entrevista ao The Wall Street Journal.

Robôs na torcida
Robôs substituem torcida em jogo de beisebol no Japão, por causa da pandemia | Foto: Reprodução

Robô Pepper sai de linha após fracasso de vendas

A unidade de robótica do SoftBank interrompeu a produção do robô humanoide Pepper no ano passado e planeja reestruturar suas equipes globais de robótica, incluindo uma unidade francesa envolvida no desenvolvimento da Pepper.

A porta-voz da empresa Ai Kitamura disse que o robô Pepper é o ícone do SoftBank e ainda faz um bom trabalho como professor e tomador de temperatura em hospitais.

O SoftBank apresentou o humanoide ao mundo em 2014 e começou a vendê-lo no ano seguinte. Na ocasião, o presidente-executivo do SoftBank, Masayoshi Son, disse que aquele era um dia histórico para a era robótica.

O SoftBank vendeu os robôs por cerca de US$ 2.000 (cerca de R$ 10 mil), mais taxas mensais para serviços de assinatura. Para empresas, os robôs eram alugados por US$ 550 por mês (R$ 2,7 mil).

Treinador robótico para idosos não anima e perde emprego

O robô Pepper foi programado para demostrar um comportamento alegre e interpretar as emoções humanas, interagindo com conversas básicas. Mas essas interações nem sempre foram bem sucedidas.

Em 2016, um asilo de Tóquio colocou três robôs Pepper, cada uma a um custo de cerca de US$ 900 por mês, para animar os exercícios dos idosos. No início ele despertou interesse curiosidade, mas com o tempo passou a ser ignorado.

“Os usuários ficaram animados em tê-lo no início por causa de sua novidade”, disse Masataka Iida, executiva da empresa. “Mas eles perderam o interesse mais cedo do que o esperado.”

Ela conta que o repertório de movimentos de exercícios de Pepper era limitado e, devido a erros mecânicos, às vezes fazia pausas não planejadas no meio do trabalho. Depois de três anos, a empresa desligou o robô a tomada.

Robô contratado como consultor financeiro desaparece

A Mizuho Financial Group chamou a imprensa em 2015 para mostrar um Pepper apresentado como funcionário encarrecado de ficar no lobby do banco, com crachá no pescoço, encarregado de recomendar produtos financeiros aos clientes.

Hoje Pepper não está mais no banco, e a empresa não informa o motivo. O lote inicial de 1 mil unidades do Pepper se esgotou rapidamente, apesar do preço.

O jornalista de tecnologia Tsutsumu Ishikawa, disse ao The Wall Street Journal que se apaixonou à primeira vista pelo robô, mas depois de arrependeu. Conectado à nuvem, o robô não reconheceu mais os membros da família após o reparo de um sensor. Ele também não era capaz de desenvolver diálogos.

O jornalista enviou o robô de volta ao SoftBank em 2018, depois de gastar pelo menos US$ 9 mil. “Foi um desperdício de dinheiro. Ainda me arrependo”, disse ele.

Sites de produtos de segunda mão vendem robôs

Em sites de artigos usados, unidades do Peppers antigos estão disponíveis por algumas centenas de dólares, normalmente sem contratos de serviço do SoftBank e destinados como decoração de casa ou escritório ou brinquedos para as crianças desmontarem.

Observadores da indústria dizem que alto-falantes inteligentes domésticos ou assistentes de smartphone realizam muitas das funções da Pepper de forma mais confiável e a um custo menor.

Especialistas em tecnologia de robôs dizem que se Pepper fosse feito como entretenimento, teria sido melhor se parecesse com um cão ou animal de pelúcia para evitar grandes expectativas.

Empresa troca humanoides por robôs em forma de animais

Algumas empresas estão seguindo esse conselho. Um ex-executivo do SoftBank Robotics lidera uma startup que faz um robô em forma de animal de estimação em forma redonda chamado Lovot. A proposta é de animar os humanos, e não ajudá-los a trabalhar.

O Nicobo da Panasonic, lançado este ano, é projetado como uma criatura vulnerável capas de despertar o instinto carinhoso de seu dono. Suas habilidades incluem fazer sons de flatulência.

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