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Setor financeiro deve liderar agenda socioambiental

Para Joaquim Levy, diretor de Estratégia do Safra, instituições financeiras já contribuem para o desenvolvimento sustentável

Torres eólicas ao lado de chaminés

Cerca de 20% da carteira de crédito do sistema bancário é de empréstimos “verdes”, segundo a Febraban / Foto: Getty Images

“Como canalisador da poupança e gestor de riscos, o sistema financeiro pode contribuir para o aprimoramento da precificação dos riscos socioambientais e climáticos e criação de um mercado de instrumentos que incentive a mitigação desses riscos”.

A opinião é do diretor de Estratégia Econômica e Relações com Mercados do Banco Safra, Joaquim Levy. Para ele, o sistema financeiro tem papel muito relevante na agenda de desenvolvimento socioambiental no Brasil.

A precificação dos riscos socioambientais e climáticos, que torna o crédito mais barato ou caro, dependendo da forma com que o tomador administra e mitiga sua exposição aos riscos, proporciona um sinal muito importante para empresas e tende a alinhar-se com as preferências dos investidores, dando-lhes expressão mensurável e concreta, explica Levy.

A exigência de conformidade por parte dos tomadores de crédito com padrões de governança e de gestão socioambiental já pauta boa parte dos empréstimos do setor bancário.

É o caso, por exemplo, da agricultura, onde a prova de cadastro ambiental rural é parte dos requisitos para o crédito rural. 

Créditos verdes já somam 20% da carteira

Segundo Levy, além disso, muitos bancos já classificam suas carteiras de acordo com critérios socioambientais, o que permite, por exemplo, a Febraban determinar que perto de 20% da carteira de crédito do sistema bancário é de empréstimos “verdes”.

“Há cada vez mais compreensão de que um tomador que respeite os princípios ESG tende, entre outras coisas, ter menor risco, inclusive pelo impacto que a qualidade da governança tende a ter na qualidade de crédito das empresas”, afirma o economista.

De acordo com ele, a participação do setor financeiro – através de bancos comerciais, de gestores de recursos, ou bancos de investimento ‑ poderá dar grande contribuição para aumentar a intensidade de capital e produtividade da agropecuária brasileira, diminuindo a pressão sobre os biomas do cerrado e da floresta amazônica, e abrindo novos mercados para os produtos brasileiros. 

Há também, segundo Levy, inúmeras possibilidades no setor industrial, desde promover a integração da produção do carvão vegetal e da siderurgia, até a modernização de plantas industriais para reduzir o consumo de água e energia, além de aumentar a segurança dos trabalhadores.

Riscos ambientais devem ser transparentes

Um próximo passo importante para promover a agenda socioambiental será a eventual adoção de critérios para a determinação da probabilidade de ativos do sistema bancário estarem sujeitos a riscos de transição climática e virem a “encalhar” (se tornarem stranded assets) à medida em que a mudança climática avança e medidas são tomadas para retardá-la.

“Tornar as demonstrações financeiras de empresas e bancos mais transparentes aos riscos ambientais e especialmente climáticos é o objetivo do grupo patrocinado pelo G20, também conhecido como força tarefa Bloomberg”, comenta Joaquim Levy.

“Essa força tarefa tem produzido importantes relatórios nesse tema, acolhidos e promovidos pela Febraban.  Como parte das negociações mundiais sobre o clima, a ONU tem sugerido tornar essa abordagem obrigatória nos países participantes do Acordo de Paris”, acrescenta.

O diretor do Safra afirma que o setor financeiro irá ajudar a agenda socioambiental principalmente através da inovação, isto é, mecanismos e instrumentos que incentivem a sustentabilidade. 

No Brasil, já foram lançados títulos de créditos (debêntures ou bonds) com taxas de juros variáveis em função do cumprimento de certos compromissos ambientais. 

Também se popularizaram os chamados títulos verdes – cujos recursos levantados são aplicados em atividades socioambientais reconhecidas e verificadas.

Compromisso com agenda socioambiental

Na avaliação de Levy, há cada vez mais interesse em fundos de investimentos que privilegiam empresas comprometidas com a agenda socioambiental. Ele lembra que recentemente começaram-se a desenhar fundos de investimentos associados a créditos de carbono e outros ativos conectados com essa agenda.

O setor financeiro já vem contribuindo para o desenvolvimento de mercados de carbono no Brasil de pelo menos duas formas.

Primeiro, a Febraban criou uma parceria com o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) para estimular o mercado de créditos de carbono no setor empresarial.

Na sequência, vários gestores e tesourarias têm começado a negociar com os CBIOs, que são créditos de carbono gerados no âmbito do Renovabio, programa dedicado a estimular os biocombustíveis no Brasil. 

Cada CBIO, explica Joaquim Levy, corresponde à redução de 1 tonelada de CO2 decorrente do uso de um biocombustível ao invés de um combustível fóssil tradicional. 

Esses CBIOs podem ser emitidos por produtores de biocombustíveis certificados pelo governo conforme a “pegada de carbono” do seu processo produtivo, e são negociados na Bolsa de Valores do Brasil, a B3, com comprador final sendo as distribuidoras participantes do Renovabio ou qualquer agente econômico que queira comprar um crédito de carbono certificado. 

O mercado de CBIOs está projetado a alcançar o equivalente a 90 milhões de toneladas de CO2 por ano ao final da década que se inicia. Ao preço de US$10/tCO2, isso equivaleria a R$ 5 bilhões de CBIOs por ano.

  “O setor financeiro, em parceria com seus clientes, investidores e reguladores continua apoiando o investimento alinhado a critérios socioambientais, promovendo a melhora da qualidade desse investimento e do bem estar e desenvolvimento da sociedade brasileira”, conclui Levy.

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