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Renata Giovinazzo Spers

O futuro dos meios de pagamento: transformação digital está só começando

Pesquisa da FEA-USP aponta os cenários possíveis para o futuro dos meios de pagamento na era digital

compra online

Novos hábitos de consumo foram estabelecidos na pandemia, mas a revolução digital mal começou | Foto: Getty Images

Apesar de as cédulas de dinheiro ainda terem grande representatividade como forma de meio de pagamento nos mercados brasileiros, temos observado uma evolução dos instrumentos de pagamentos, buscando maior eficiência, simplicidade e agilidade para as empresas. Em paralelo, os consumidores também têm demandado formas mais flexíveis de realização de pagamentos, sem a limitação do dinheiro físico e com maior liberdade financeira.

Devido à pandemia, o processo de transformação digital das empresas acelerou. De uma hora para a outra, as necessidades dos clientes mudaram, passaram a contemplar novas formas de vendas e realização dos pagamentos. O processo de aceleração da digitalização das empresas foi viável porque havia consumidores dispostos a dar preferência a novos modelos, inclusive novos meios de pagamento. Nos dois anos de pandemia houve gradualmente uma queda na resistência dos clientes realizarem compras online e experimentarem serviços a distância. Novos hábitos de consumo foram de fato estabelecidos neste período.

Uma pesquisa internacional sobre adoção de meios de pagamento, realizada em 2021, mostra que 77% dos entrevistados no Brasil informaram que testaram um novo meio de pagamento em 2020. A pesquisa evidencia que os consumidores tiveram essa atitude devido à pandemia, tendo em vista que não teriam feito o teste se não fosse a Covid-19.

Outros dados interessantes desta pesquisa mostram que, dentre os entrevistados na pesquisa, 29% testou comprar pelas redes sociais, 60% atestou que aumentou a frequência de pedidos de delivery de comida, 59% passou a comprar em marketplaces, 66% diminuiu as compras presenciais em alguma medida e 51% reduziu o uso do dinheiro em espécie.

Os recentes meios de pagamento oferecidos aos consumidores incorporam novas tecnologias, com recursos de automação, integração aos processos de compra e venda, assim como agilidade. Nesse contexto, se destacou o Pix, sistema de pagamentos instantâneo que foi alavancado no ambiente brasileiro devido à tendência da maior adoção de smartphones e do surgimento das Fintechs, empresas digitais que atuam no mercado financeiro.

A divulgação desse novo produto foi inicialmente recebida com controvérsias e desconfiança. Porém, acabou tendo uma grande aceitação por apresentar vantagens para o lojista e consumidores, em especial a praticidade, rapidez da transação, segurança e baixo custo.

O Pix teve um papel disruptivo no mercado de meios de pagamento no Brasil, mas quais são as tendências para o futuro deste segmento, após seu lançamento em 2020 e crescente adoção?

Uma pesquisa realizada na FEA-USP, sobre cenários futuros do mercado de meios de pagamento até 2030, aponta para quatro cenários futuros possíveis para o Brasil. O primeiro cenário, denominado Preso no passado, mostra uma situação futura na qual os stakeholders não aceitariam novos meios de pagamentos e haveria baixa inovação no mercado, com estagnação tecnológica. Um segundo cenário, Olhando para o futuro, mostra uma situação futura com stakeholders ávidos por inovações, mesmo que o mercado não esteja inovando. Já no cenário Muro de Berlim , as empresas do setor estão inovando e tentando inserir novas tecnologias para meios de pagamento, porém os stakeholders têm dificuldade em aceitar estes novos modelos, com a possibilidade de o Banco Central barrar algumas inovações. Por fim, temos o cenário de Liberdade, apontando para uma situação futura em que stakeholders aceitam as novas tecnologias, ao mesmo passo em que empresas estão focadas em desenvolvê-las, alavancando a inovação e dinamismo do setor de meios de pagamento no Brasil.

O cenário de Liberdade foi indicado como o mais provável de acontecer em 2030 pelos especialistas participantes da pesquisa. Isto se deve especialmente ao fato das fintechs oferecerem cada vez mais serviços digitais, que são bem aceitos no contexto dos novos hábitos dos consumidores. Este cenário também expande as possibilidades do mercado e melhora a experiência do consumidor, alavancando a adoção de novas formas de realizar os pagamentos.

Mas para que este cenário se concretize, algumas tendências deverão ser observadas, com destaque para as estratégias de melhoria da experiência do cliente com os novos meios de pagamento digitais, com vistas à atração e retenção destes consumidores. Os super apps também aparecem como relevantes, permitindo que o cliente utilize redes sociais para realizar compras, tenha sua carteira de investimentos e outros benefícios em um único aplicativo. Estratégias de ampliação dos meios de pagamento atuais também devem atrair os consumidores, por exemplo com cashbacks em cartão de crédito e pagamento por aproximação.

Os meios de pagamento representam um importante ponto de contato entre as empresas e seus consumidores. Vivemos um momento de transformação digital que é irreversível, e que deve continuar se fortalecendo durante os próximos anos. As empresas devem estar atentas a essa tendência de digitalização das formas pagamento e se adequar o quanto antes para as novidades que ainda estão por vir.


Renata Giovinazzo Spers é diretora do Programa de Estudos do Futuro (Profuturo) da Fundação Instituto de Administração (FIA). Vice-Presidente do Conselho de Cursos e membro titular do Conselho de Consultorias da FIA. Professora Associada da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), onde leciona disciplinas de Prospecção do Futuro e Estratégia, Desenvolvimento de Novos Negócios e Laboratório de Gestão.

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