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Marcus Nakagawa

Marcus Nakagawa

O ESG e a geração de valor

Talvez estejamos voltando aos primórdios dos produtos e serviços, criando em cima das necessidades reais das pessoas e, mais do que isso, nas urgências da humanidade

Mulher andando de bicicleta em rua ensolarada com árvores em destaque, alusivo ao conceito ESG

Busca pelo conceito ESG no Google vem aumentando nesses últimos meses, a partir de junho e julho de 2020, assim como em pesquisas relacionadas | Foto: Getty Images

A divulgação e consolidação do ESG ou ASG nas empresas, acrônimo que, para quem está lendo pela primeira vez, significa em inglês Ambiental, Social e Governança, está cada dia mais presente e sendo debatido em diversas plataformas: podcasts, televisão, blogs, sites, rádio etc. Os investidores impulsionaram a temática no meio da pandemia por entender que as empresas precisam entregar valor para eles e, também, para a sociedade, por meio de um desenvolvimento sustentável que leve em consideração as questões não só financeiras, mas também os pilares sociais e ambientais.

O artigo da Harvard Business de 2011, com o título “Criação de Valor Compartilhado”, assinado por Michael Porter e Mark Kramer, trouxe esse desafio de reinventar o capitalismo e desencadear uma onda de inovação e crescimento. Os autores apresentam esse conceito de valor compartilhado, cujo foco é a relação entre o progresso social e o econômico, e que existem três grandes saídas para as empresas criarem oportunidade de valor como: reconceber produtos e mercados, redefinir a produtividade na cadeia de valor e fomentar o desenvolvimento de clusters locais. Eles afirmam que as necessidades sociais e não só necessidades econômicas convencionais, definem o mercado, e que as mazelas sociais criam custos internos para as empresas.

Pois é. Agora com a crise pandêmica, que causou também a crise econômica mundial, podemos perceber que uma década atrás estávamos discutindo essa temática. Vou além. No final dos anos 90, um grupo de empresários e executivos da iniciativa privada no Brasil criou o Instituto Ethos para fomentar e aprofundar o compromisso das empresas com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável. Tive a oportunidade de participar de uma das primeiras conferências e acompanhar, durante a minha carreira, esses visionários na questão da mudança de paradigma de gestão das empresas.

É isso que estamos vivenciando hoje, uma verdadeira disrupção do sistema empresarial. Talvez estejamos voltando aos primórdios das criações dos primeiros produtos e serviços na história da administração, ou seja, repensando em criar em cima das necessidades reais das pessoas, mais do que isso, nas urgências da humanidade. A pandemia mostrou exatamente isso com a corrida das vacinas, empresas de bebidas e remédios fazendo álcool em gel, fábricas de roupas fazendo máscaras, enfim, itens de primeiras necessidades para a proteção de todos e todas. Decerto, seja esse “reconceber” produtos e mercados que Porter e Kramer comentam no seu artigo.

Em 2003, Stuart Hart e Mark Milstein, fizeram um artigo com o título “Criando Valor Sustentável”, mostrando que naquela época (e talvez ainda nesta) grande parte dos executivos ainda considera o desenvolvimento sustentável uma espécie de mal necessário, uma vez que envolve regulações, custos e responsabilidades onerosas. No artigo é apresentado um modelo com uma estrutura de criação de valor para os acionistas, que insere os desafios globais do desenvolvimento sustentável. Além disso, reafirma que a sustentabilidade não é incompatível com o crescimento econômico, mas que, sim, pode ser uma fundamental fonte de vantagem competitiva e de geração de valor para acionistas e sociedade em geral.

Pois é, muitos visionários já vinham sentindo esse movimento e apresentando as novas tendências do mercado. Voltando para os dias atuais, ainda sobre tendências, e colocando o acrônimo ESG no Google Trends (plataforma on-line que mostra a tendência de buscas por certos termos) mostra que a busca pelo conceito ESG vem aumentando nesses últimos meses, a partir de junho e julho de 2020, e também que pesquisas relacionadas como “o que significa ESG”, “Agenda ESG”, “ESG o que é”, “ESG significado” etc., estão em ascensão. Nas buscas ainda como assuntos relacionados estão as ações, o compliance, o relatório, a governança corporativa e a bolsa de valores.

Saindo das teorias e indo para a prática, a geração de valor por meio do ESG tem alguns bons incentivos: linhas de financiamentos especiais como a recém-lançada pelo BNDES, que conta com recursos da ordem de 1 bilhão de reais. Dentre as suas principais premissas deste recurso está o incentivo à mudança para uma economia de baixo carbono e o fortalecimento de cadeias de fornecedores mais sustentáveis nas regiões menos desenvolvidas do País.

Algumas grandes empresas estão buscando ampliar o gerenciamento desse valor, como a Ypê, empresa de várias categorias no segmento de limpeza no Brasil, que ampliou o seu departamento de sustentabilidade e criou uma área específica que fará a gestão de impacto em ESG.

Outro exemplo, ligado ao envolvimento da liderança nesta geração de valor compartilhado, é o Assaí Atacadista, que colocou uma meta de redução de 30% nas emissões de carbono na sua operação até 2025, e atrelou à remuneração variável da média e alta liderança, incluindo o CEO, e todos os diretores nas suas 186 unidades espalhadas nas cinco regiões do Brasil.

Temos muitos e muitos casos de empresas que estão inserindo as temáticas do ESG no seu dia a dia, na sua operação, na sua estratégia e nos seus objetivos. Precisamos acelerar este movimento cada vez mais, pois depois dessas crises, existem muitas pessoas e locais que estão precisando ter a geração dos valores econômico, social e ambiental o mais rápido possível!

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Marcus Nakagawa é professor da ESPM e coordenador do ESPM de Desenvolvimento Socioambiental.

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