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Pandemia abre mercado para app de consulta virtual

Ian Bonde, criador do ViBe Saúde, fala sobre a revolução das chamadas ‘health techs’, provedoras de inovação na saúde

consulta medica pelo celular

Aplicativo ViBe Saúde garante 45 mil consultas médicas à distância por mês | Foto: Getty Images

Ian Bonde lançou o aplicativo da ViBe Saúde quando a curva da primeira onda da pandemia acelerava no país, em julho de 2020. Das iniciais 50 consultas por mês, a plataforma saltou para 45 mil atendimentos mensais, em medicina e psicologia.

Não sem motivo, a empresa recebeu um novo aporte do fundo sueco Webrok Ventures, de R$ 54 milhões – o primeiro foi de R$ 12 milhões, no início das operações.

O CEO diz que sempre acreditou que a telemedicina conquistaria espaço no país, mas não na velocidade imposta pela pandemia.

Com crescimento dos quadros profissionais, atendimentos e serviços médicos e terapêuticos realizados on-line (1,25 milhões de downloads, em pouco mais de um ano), o empresário quer alcançar cerca de 160 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Na entrevista a seguir ele fala sobre o crescimento de sua plataforma e o espaço que se abre no Brasil para as chamadas “healht techs”, empresas que desenvolvem soluções tecnológicas para facilitar o acesso aos serviços de saúde.

O Especialista –  Quais são os principais entraves para a estruturação de um negócio baseado em telemedicina no Brasil? A pandemia ajudou a derrubar quais deles? Quais ainda precisam evoluir para o melhor desenvolvimento do negócio?

Ian Bonde – Temos duas questões principais. A primeira se refere ao aspecto regulatório. Houve, claramente, uma aceleração devido à pandemia. Na primeira fase, com a população ainda assustada e sem informações claras, a telemedicina apresentou-se como solução não somente para os casos de covid-19, mas também para outras patologias, agudas e crônicas, que continuaram acontecendo.

O Ministério da Saúde regulamentou a operação com a portaria 467, de março do ano passado, possibilitando o atendimento a milhares de pessoas que não teriam outro recurso.

O segundo aspecto é o sociocultural. Como sociedade, não tínhamos o hábito do uso da telemedicina no formato atual. Alguns médicos atendiam por mensagens de texto, WhatsApp e algumas vezes ligações de vídeo, mas não com os controles clínicos disponibilizados por novas ferramentas como a ViBe.

Foram 10 anos em 1! Não há dúvidas sobre o impacto da pandemia nessa mudança de comportamento.  Nossos dados internos mostram que mais de 60% dos casos podem ser resolvidos por uma consulta digital, com o paciente em casa, sem filas ou exposições desnecessárias, ajudando, inclusive, a desafogar os serviços de urgência.

Nossas mais de 45 mil consultas por mês, apontam para a direção de que a regulamentação veio para ficar e que a saúde está passando por uma revolução digital ainda maior. Vimos no Brasil a revolução das fintechs. Agora, estamos vendo a revolução das health techs.  Queremos liderar esse movimento – com um foco muito claro – de sempre melhorar a experiência e serviço aos usuários, aos pacientes.

A ViBe Saúde recebeu o aporte de R$ 54 milhões da sueca Webrock, que já havia colocado R$12 milhões na empresa, em fevereiro de 2020. Quais serão os investimentos prioritários desse aporte nos próximos meses?

Nosso objetivo é democratizar o acesso à saúde a todos os brasileiros, e para isso serão alocados esses recursos. Nosso foco número 1 é sempre o recrutamento e a qualificação de um corpo técnico (médicos, psicólogos, enfermeiros etc.) de altíssimo calibre. 

Na Vibe a nossa estratégia foi usar um time próprio, focado no atendimento digital e na qualidade.  Em seguida, vem a tecnologia – com investimentos pesados em novos produtos e UX (experiência do usuário). Finalmente, ações de marketing para fortalecimento e awareness (conhecimento) de marca assim como aquisição e retenção. Acreditamos nesse tripé.

Os dados mostram hoje um alto nível de satisfação pelos pacientes da ViBe que sabem que aqui eles terão seu prontuário e seus dados integrados. Já somos hoje reconhecidos como a melhor experiência do usuário e qualidade do atendimento.

Como está sendo a busca por profissionais de saúde neste momento em que a demanda é máxima no Brasil por causa do agravamento da crise sanitária? 

O Brasil tem hoje mais do que o dobro de médicos que tinha no início do século. Em 2020, eles somavam mais de 500 mil profissionais.  Nos parece que temos médicos em número suficiente para atender a população brasileira. O problema está na distribuição nas diferentes regiões do Brasil.  A telemedicina vem justamente ajudar nesse ponto – pois conseguimos juntar o corpo médico que está mais concentrado nas grandes capitais e maiores cidades com pacientes por todo o Brasil, de Norte a Sul.   Aqui na ViBe realizamos em torno de 45 mil consultas mensalmente, tanto médicas quando psicológicas.  A mudança cultural é gigante, mas está acontecendo de maneira orgânica, tanto para os pacientes quanto para médicos e psicólogos. 

Na oferta do aplicativo, o slogan propõe “Fale com um médico, psicólogo e especialistas de onde estiver, na palma da mão.” É possível dizer que a psicologia é, ou virá a ser, uma área-chave da ViBe Saúde? Se sim, qual a razão?

Saúde mental é um tema que entrou na nossa pauta antes do lançamento do aplicativo. A importância da saúde mental em tempos de pandemia ficou ainda mais evidente nas novas realidades de isolamento, perda de emprego, medos e incertezas. O resultado disso foi o aumento expressivo de casos de depressão, ansiedade e doloridas elaborações de luto.

Nós da Vibe somos uma empresa de saúde digital integrada. Reconhecemos que corpo e a mente formam uma unidade integrada e, portanto, não se sobrepõem. Um terço das nossas consultas já são de apoio psicológico. Criamos um programa estruturado de terapia e percebemos um crescimento importante no que chamamos de “Sessão Desabafo”. Esse atendimento é um espaço de escuta terapêutica que acolhe e orienta pessoas que precisam de um espaço de fala.

O impacto positivo na vida dos usuários é evidente, que voltam para nos contar a ajuda que tiveram no nosso atendimento. Importante dizer que hoje trabalhamos com equipes próprias, tanto das áreas clínicas quanto da psicologia  –  para nossos serviços de telemedicina e todas as nossas linhas de cuidado digitais.

Em que países e modelos de atendimento vocês se inspiraram para estruturar o aplicativo? Como nasceu a ideia e como ela ganhou corpo?

Estudamos muito o mercado americano com a sua ampla oferta de soluções de telemedicina e linhas de cuidado (Digital Therapeutics).  Temos exemplos de sucesso na Europa, especialmente a Escandinávia e Inglaterra – por seu foco em atenção primária integrada e excepcionais inovações em UX. No mercado chinês com exemplos incríveis de plataformas “one stop shop” (ambientes virtuais que oferecem diversos produtos. serviços ou experiências)com parcerias afiliadas. Todos esses conceitos estão no centro do nosso posicionamento estratégico. 

A internet brasileira representa um desafio para a expansão da empresa? As expectativas com a chegada do 5G podem representar uma maior capilaridade de atendimento? Existe um programa de trabalho nesse sentido?

Observamos um aumento importante da penetração da internet móvel no Brasil em 2020 que passou a barreira dos 90%, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. E cresce igualmente a penetração de smartphones, fundamentais para o nosso negócio de telemedicina e saúde integrada, feita em grande medida dentro do aplicativo Vibe Saúde.  Existem, sim, ainda problemas da qualidade de conexão, mas estão sendo superados a passos largos. 

Eu diria que houve uma mudança social: hoje as pessoas fazem quase tudo pelo celular. Consultar um médico ou um psicólogo se torna algo mais corriqueiro quando se está no conforto de casa, sem filas ou o risco de aglomerações durante a pandemia. Definitivamente, o 5G vai ajudar, pois na ViBe, temos uma visão de saúde integrada – consulta, pedidos médicos e de exames, compra de medicamentos e exames laboratoriais além de programas de cuidado contínuo focados na prevenção. Tudo isso precisa de conexão.

Uma coisa é certa: a tecnologia vem ajudar a democratizar o acesso à saúde permitindo que ela chegue às diferentes regiões do Brasil, mesmo as mais isoladas, mas não substituirá nunca a interação  médico-paciente.  Ter o melhor corpo médico, os melhores profissionais, é o nosso bem mais precioso.  Esse cuidado humanizado aliado à tecnologia de ponta em telemedicina e cuidados de saúde são a nossa maior fortaleza aqui na ViBe!

Vocês atingiram em menos de um ano 1 milhão de downloads: de fato o aplicativo é acessível, leve e fácil de baixar. Depois dessa etapa, existe um funil para o uso de fato, como marcações de consultas? Como acontece a fidelização do público à plataforma?

Estamos batendo a marca de 1,25 milhão de downloads, somos a health tech de saúde digital número 1 no Brasil para o mercado B2C.  O app foi desenvolvido com nosso parceiro da Suécia (doctor.se)  e une o que existe de melhor no mundo em termos de tecnologia e aplicativos de saúde com um foco grande no cliente. São mais de 45 mil consultas mensais (e esse número vai crescer de maneira exponencial ao longo do ano) com diferentes profissionais: médicos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e outros.

Temos duas modalidades nesse momento – uma com um atendimento gratuito que pode ser acessado na hora, depois de uma triagem com um profissional de enfermagem. E outra com hora marcada (agendamento), à preços bem competitivos (De R$ 55 a R$ 80). 

Eu gosto sempre de ver o lado positivo das coisas.  Estamos entre as maiores economias do mundo, num mercado (o de saúde) com muito propósito, num segmento (digital /nova economia) com potencial de crescimento exponencial. Acreditamos no cuidado humanizado e integral, com foco na prevenção. Mais uma vez, temos uma visão de democratizar o acesso a uma medicina e cuidado integral para os mais de 160 milhões de brasileiras e brasileiros (70% da população) que não têm acesso a um plano de saúde.


Como foi absorver o crescimento de consultas prescrições, exames, retornos e das terapias?

Desde que lançamos o nosso novo aplicativo há somente oito meses (em julho de 2020), o número de downloads e de usuários ativos vem crescendo em torno de 50% por mês – das 100 consultas iniciais saltou para cerca de 50 mil somente neste mês – tudo isso puxando prescrições digitais e de exames hoje realizados “in-app”, por meio de uma integração com a plataforma Memed.

Além de colocar o paciente em contato com o médico por preços acessíveis, quais outras ferramentas de apoio a plataforma oferece para usuários e profissionais que a tornam diferente dos serviços de telemedicina tradicionais?

A ViBe não é uma simples plataforma de telemedicina. Somos uma empresa de Saúde Digital, em que o paciente encontra alternativas para um cuidado completo no que se refere à atenção primária à saúde.

As ferramentas vão desde conteúdos de saúde às Linhas de Cuidado Continuado em patologias crônicas (obesidade, diabetes, hipertensão, questões osteomusculares, saúde mental e outros). Pelo chat, é possível conversar com profissionais de saúde e esclarecer dúvidas, o que é bastante útil para os casos em que não é necessário realizar uma consulta.

A nossa solução conta também com diversas funcionalidades relacionadas ao engajamento a saúde: quanto mais o paciente interage, mais ele é impactado por informações, tarefas, enquetes e desafios, de forma que a atenção a sua saúde se torne parte de sua rotina.

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