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Créditos de carbono: a moeda sustentável do futuro

Criados em 1997, os certificados ajudam na redução de emissões de gases do efeito estufa e podem gerar receitas a empresas e nações

Crédito de carbino

Segundo o Banco Mundial, o Brasil é um território onde o mercado de créditos de carbono ainda está sob consideração, com longo caminho até a regulamentação | Foto: Getty Images

O crescimento da importância dos aspectos ESG (ambiental, social e de governança, em inglês) fez novos instrumentos de incentivo à sustentabilidade emergirem no mundo dos negócios, como os créditos de carbono. Essa ferramenta promove a descarbonização e a consequente reversão das mudanças climáticas, além da geração de receita extra às companhias e países, se tornando uma “moeda sustentável”.

Adicionalmente, as empresas que lançam mão de práticas mais sustentáveis caíram nas graças dos consumidores em todo mundo.

Para que os créditos de carbono se tornem essa moeda do futuro para empresas e nações, há a necessidade de que mercados nacionais e internacionais regulados sejam criados e evoluam.

Segundo o Banco Mundial, os ambientes regulados de negociação já cobrem 20% das emissões de carbono de todo o planeta, com espaço enorme para crescimento.

“Essa transformação dos créditos quase que como se fossem uma moeda, dentro do contexto ESG, é muito importante. As empresas devem começar a fazer a compra a venda e os governos precisam entrar junto para aumentar as transações e, obviamente, lá na ponta, a gente estar descarbonizando muita coisa”, diz Marcus Nakagawa, professor e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental.

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O que são

Os créditos de carbono são unidades de medida que correspondem a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (t CO2e).

Sua criação, assim como o conceito do mercado desses ativos, vem da assinatura de 192 países no Protocolo de Quioto, em 1997, no Japão.

O acordo previa que países desenvolvidos reduzissem emissões de gases do efeito estufa (GEE) em 5,2%, comparando-se com os níveis de 1990, entre 2008 e 2012.

Nesse sentido, os créditos surgiram como forma de mensurar a redução de emissões dos gases nocivos de uma determinada atividade.

Cada crédito é certificado pela agência reguladora do país e confere a uma empresa o direito de comercializar estes bônus de redução.

A venda dos créditos de carbono pode ser feita com nações e empresas que não alcançam suas metas de redução de emissões de carbono.

Por que são tão importantes

O mundo está esquentando, literalmente, devido às emissões de GEE. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, os últimos seis anos foram os mais quentes registrados desde a era pré-industrial (1880), sendo 2016, 2019 e 2020 os três primeiros.

O ano 2020 foi de 1,2°C (graus celsius) acima das temperaturas registradas pouco antes da industrialização global.

Como agravante, o Índice de Economia de Baixo Carbono da consultoria PwC mostra que o progresso na redução de emissões caiu nos últimos anos.

A lacuna entre a taxa de descarbonização real (-1,6%) e a necessária para manter o aquecimento abaixo da linha de 1,5°C (-11,3%) está aumentando.

Fora a importância ambiental, de prevenção a desastres naturais e preservação do planeta, acumular créditos de carbono também é uma forma de encorajar a sociedade a consumir produtos sustentáveis.

Pesquisa da consultoria KPMG aponta que a importância dos fatores ESG para na hora da compra aumentou 27% em todo o mundo desde o início da pandemia de covid-19.

Logo, organizações que investem na frente sustentável têm mais chances de prospectar clientes e prosperar nos negócios do que poluidoras tradicionais.

“Depois de suas décadas de criação do conceito, valor dos créditos de carbono tem aumentado. Não o valor monetário, mas sua importância. Eles estão girando a economia, principalmente depois do movimento do governo dos Estados Unidos de levar em consideração o meio ambiente”, afirma Nakagawa.

Como funciona o mercado de créditos de carbono

O mercado de créditos de carbono passou a ganhar força a partir do Acordo de Paris, selado entre 194 países durante a COP-21, cúpula do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, na França.

O artigo sexto do acordo prevê a regulação de compra e venda desses ativos entre os países por meio de um mercado.

Entretanto, é importante ressaltar que os créditos de carbono são uma ferramenta de auxílio ao objetivo de cada país na redução de emissões. Nesse sentido, é proibido utilizar os créditos de carbono para 100% da meta.

Por isso, a regulação do mercado se faz necessária, uma vez que a compra de créditos não pode ser encarada por qualquer organização como uma forma de continuar poluindo.

Mercado mundial de créditos de carbono

No contexto mundial, o mercado de créditos de carbono tem avançado, mesmo com a falta de regulamentação a nível mundial.

De acordo com o Banco Mundial, em 2020 esses ambientes regulados de forma nacional ou entre blocos de países geraram um total de US$ 53 bilhões (R$ 273,7 bilhões) em receitas em todo o mundo.

De acordo com o órgão, esse volume de receitas a partir dos gás vilão do efeito estufa cresceu 17% em relação a 2019.

Nos últimos dois anos, o Banco Mundial mapeou a criação de sete instrumentos de precificação de carbono em seis países: Alemanha, China, Países Baixos (Holanda), Luxemburgo, México e Reino Unido.

Mercado no Brasil

O Brasil aparece de forma tímida no relatório do Banco Mundial, sendo classificado como um território onde o mercado de crédito de carbono está sob consideração.

Na visão de Marcus Nakagawa, da ESPM, falta ao País uma padronização de modelos de certificação dos créditos que gere confiança plena sobre as reduções de emissões. “Temos várias organizações que acabam fazendo essa gestão e dando selos, mas são muitos modelos e nomes”.

“A gente precisa regularizar isso lá na ponta para quem está reduzindo a emissão de carbono para poder ter um mercado mais organizado e ter como se fossem bancos centrais dentro dessas questões”, completa Nakagawa.

O País, inclusive, foi um dos protagonistas no atraso da regulamentação de forma global, cujo avanço era esperado para a COP-25, realizada em dezembro de 2019, em Madri, na Espanha.

Na ocasião, o Brasil transmitiu à ONU Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) – que norteiam o trabalho de longo prazo de redução de emissões – consideradas fracas.

A proposta brasileira foi de, tendo o ano de 2005 como base, reduzir em 43% as emissões de carbono até 2030 e atingir a neutralidade em 2060.

Em novembro, haverá a COP-26, desta vez em Glasgow, na Escócia, onde o Brasil deve apresentar novas NDC. A depender do resultado, elas podem ajudar o no avanço da regulação do mercado doméstico de créditos de carbono.

“A gente está numa turbulência, não só pandêmica, econômica e social, mas também na questão do meio ambiente. Dentro dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, temos que desenvolver muitas questões, inclusive a do carbono. Esperamos que em outras ou ainda nesta gestão, assim como agora com os Estados Unidos, tenhamos uma posicionamento verdadeiro com investimentos e posicionamento de poder econômico”, diz Nakagawa.

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